O Grande Hotel Budapeste (The Grand Budapest Hotel), de Wes Anderson (Alemanha / Reino Unido)

Por Ricardo Largman

Hipnose em quadrinhos

 

Uma história dentro de outra história, dentro de outra, dentro de mais uma. Difícil entender? Quer que desenhe? Wes Anderson – o autor de O Grande Hotel Budapeste – desenha. Literalmente. Esteta por excelência, singular no estilo, o cineasta utiliza matte paintings em profusão, apresenta cenas de ação com auxílio de stop-motion e também em silhueta, faz de cada plano um rebuscado exercício de cores, ângulos, luzes e lentes; mistura elementos tipicamente fabulescos com os de histórias em quadrinhos e, não bastasse, varia o tamanho do quadro da tela de projeção de acordo com as diferentes épocas da trama. Tudo isso para narrar a luta – e as incríveis peripécias – de monsieur Gustave, concierge, e do aprendiz Zero Moustafa para manterem abertas as portas do hotel que dá nome ao filme, incrustado no alto das gélidas montanhas da fictícia ex-república de Zubrowka, na “mais distante fronteira do Leste Europeu”.

 

A miscelânea resulta num filme hipnótico, superlativamente belo e original, talvez o melhor da filmografia de Anderson. Livremente inspirado em trechos da vida e da refinada obra do escritor austríaco Stefan Zweig, que cometeu suicídio em Petrópolis no ano de 1942, O Grande Hotel Budapeste desenvolve os dois personagens como os heróis de um conto de fadas. Heróis, por vezes, de caráter duvidoso, já que, entre outros pecadilhos, seduzem viúvas ricas com intenções nada nobres. Mas, sim, heróis de verdade, de carne e osso, desses que ameaçam oficiais nazistas – parte da história se passa durante a Segunda Grande Guerra – para defender a sua honra e a dos fracos e inermes.

 

Diretor de A Vida Marinha com Steve Zissou, Os Excêntricos Tenenbaums e Moonrise Kingdom, Anderson extrai de seu elenco estelar interpretações notáveis neste seu nono projeto pessoal. Jude Law, Harvey Keitel, Jeff Goldblum, F. Murray Abraham, Adrien Brody, Willem Dafoe, Tilda Swinton, Owen Wilson e Edward Norton emprestam autenticidade e graça a personagens definitivamente invulgares e – se é que é possível – ao mesmo tempo caricatos. Contudo, são Ralph Fiennes e Tony Revolori, excepcionais nos papéis de Gustave e Moustafa, que definem o ritmo da narrativa. Bastante ágil e acelerada, por sinal: ora o público se vê no meio da clássica screwball comedy, ora parece acompanhar, quadrinho a quadrinho, as aventuras de Tintin.

 

Ao final, fica uma impressão semelhante à daquelas antigas imagens holográficas que, assumidamente artificiais e lúdicas, brincam com os sentidos e percepções do espectador: para entrar no universo onírico de Anderson e participar de seu jogo de fantasia metalinguística, basta apenas um ajuste de foco em nosso olhar.

The Grand Hotel Budapeste – EUA/ Alemanha, 2014 - Direção: Wes Anderson – Roteiro: Stefan Zweig, Wes Anderson – Produção: Wes Anderson, Jeremy Dawson, Scott Rudin, Steven M. Rales - Fotografia: Robert D. Yeoman – Montagem: Barney Pilling – Elenco: Ralph Fiennes, Tony Revolori, F. Murray Abraham, Adrien Brody, Willem Dafoe, Jude Law, Mathieu Amalric, Jeff Goldblum, Harvey Keitel, Edward Norton, Jason Schwartzman, Tilda Swinton, Owen Wilson, Tom Wilkinson, Bill Murray.– Duração: 99 minutos.

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