Agora isto pode ser dito


Quando foi lançado oficialmente, em agosto 1938, “A epopeia do jazz” foi elogiado pela imprensa especializada. De acordo com o American Film Institute (AFI), o longa acabaria se tornando uma nova tendência, um plot twist para a contação de uma história musical. Surgiam comentários que ressaltavam o filme como sendo fácil de ser explorado, o mais fácil desde “Branca de Neve e os sete anões” (a primeira animação, lançada no ano anterior).


Nesse sentido, é interessante observar quão saudavelmente despretensioso é o trabalho do diretor Henry King, que, tendo em mãos um roteiro que perpassava 27 anos, pouco se fixou na construção de verossimilhança: as personagens não carregam traços de envelhecimento físico. Isso, de certa forma, impregna as personalidades dos protagonistas com uma leveza quase palpável. É como se o público pudesse ser confidente de uma história que talvez fosse tola se contada com apego à seriedade.


Não que “A epopeia do jazz” seja uma obra carente de sobriedade. Em um momento no qual o mundo estava prestes a iniciar a sua segunda Grande Guerra, ver um jovem seguir o sonho popular em detrimento de uma carreira mais convencional era, por si só, um pequeno movimento revolucionário – ao menos à época; era um pedacinho do cinema que assinalava, para as futuras gerações, uma espécie de pré-nostalgia de um diretor que sabia a força da sua arte (ainda mais a poucos anos de lançar o clássico “A canção de Bernadette”).


Que o amor de Alexander e Stella, regado a mais de duas dezenas de canções compostas pelo lendário Irving Berlin, incluindo a original “Now it can be told”, possa ser contado e recontado. E que continue existindo revolução dentro de cada saudável e despretensiosa arte.

(Texto publicado na revista da mostra "O Jazz vai para Hollywood" parceria ACCRJ/Cinemateca do MAM - Setembro de 2019)



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