Quando a máfia mandava no jazz


Fala-se muito hoje em bares speakeasy ao redor do planeta como um estabelecimento cool, onde mixologistas (termo agora usado para barman) servem suas combinações criativas de drinques. O termo speakeasy (que designava de fato uma casa de contrabandista) apareceu no dicionário britânico em 1823, denotando os lugares onde eram vendidas bebidas alcoólicas não licenciadas; seria uma abreviação para speak easy shop.


Essa expressão ficou popular nos EUA durante a era da Proibição (1920-1933, com um tempo mais longo em alguns estados), época em que a venda, fabricação e o transporte de bebidas alcoólicas era ilegal em todos os Estados Unidos. Os speakeasies desapareceram em grande parte após o término da Lei Seca, em 1933, e o termo agora é frequentemente usado para descrever bares de estilo retrô conhecidos por quem tem intimidade com os lugares.


Todo esse histórico serve para se entender a importância de “Taverna maldita”, que faz um retrato romântico desse período: em 1927, o trompetista Pete Kelly (Jack Webb) de Kansas City, Missouri, e sua banda se apresentam todas as noites num speakeasy até que um criminoso tenta extorqui-los em troca de proteção. Como esses bares eram proibidos, sempre tinha um chefão da Máfia por trás do negócio ou tomando dinheiro em troca de segurança.


“Pete Kelly’s blues” (no original) tem seu charme em parte pela bela fotografia de Hal Rosson, em que as cores ditam os momentos de tensão e drama ao longo da narrativa, com seu ponto alto no tiroteio final. E pela ótima participação da crooner Peggy Lee (que foi indicada ao Oscar de atriz coadjuvante) e da grande dama do jazz Ella Fitzgerald – ambas também contribuem cantando na trilha sonora.


Além dos personagens memoráveis interpretados por Janet Leigh e Lee Marvin, o filme marca a estreia de Jane Mansfield no cinema. Mas o grande destaque vai para Jack Webb, ator conhecido pelo seriado televisivo “Dragnet”, que aqui assumiu a produção, direção e ainda faz o protagonista. Ele conseguiu dar dinamismo ao roteiro de Richard L. Breen, que se inspirou na radionovela “Pat Novak for Hire” (1951) para escrever o script – interessante notar que depois o longa gerou um seriado para a TV. Webb, que participou da radionovela, teve a boa sacada de escalar Ella Fitzgerald para um papel que no rádio era feito por uma atriz branca e com isso conferiu mais veracidade à trama, além de, levando-se em conta o elenco antes indicado, dar uma cutucada sutil em Hollywood.

(Texto publicado na revista da mostra "O Jazz vai para Hollywood" parceria ACCRJ/Cinemateca do MAM - Setembro de 2019)



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