A música é a estrela


Para os fãs do jazz, a grande estrela de “Paris vive à noite” não está no elenco, que tem as presenças de Paul Newman e Sidney Poitier, os dois ingressando em um momento de concretização de seus status como astros e de maturidade artística, além de uma Joanne Woodward já premiada e consagrada. Também não seria o diretor Martin Ritt, esboçando uma carreira que viria a ser marcada por temática social. No filme, o autor da trilha musical, o genial Duke Ellington, é incontestavelmente a principal atração. Sua sutil partitura é a razão pela qual um filme irregular segue emanando boa dose de fascínio.


Ritt, em período de fértil colaboração com o casal Woodward-Newman, impõe notável fluidez em seu trabalho de câmera, que nos momentos iniciais retrata a riqueza musical dos minúsculos porões parisienses que abrigavam clubes de jazz onde músicos americanos expatriados, como a dupla de protagonistas, ganhava a vida. A chegada de duas turistas americanas faz com que o filme seja gradativamente tomado por um clima de romance, emoldurado pelos cenários da capital francesa, em roteiro com situações-clichê ou intervenções forçadas, como a de Louis Armstrong.


A evidente indecisão que perpassa o filme reflete os dilemas impostos aos personagens e sua necessidade de fazer opções: entre a arte e a vida pessoal ou entre ficar em Paris ou regressar aos EUA. Sendo assim, “Paris vive à noite” também trafega numa linha tênue entre duas opções: constituir um retrato maduro da cena jazzistíca de sua época ou um mero romance cartão-postal. De qualquer forma, seus momentos iniciais lançam uma semente que viria a germinar em definitivo apenas na década de 1980, com “Por volta da meia-noite”, de Bertrand Tavernier, e “Bird”, de Clint Eastwood.



(Texto publicado na revista da mostra "O Jazz vai para Hollywood" parceria ACCRJ/Cinemateca do MAM - Setembro de 2019)



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