Jazz, silêncio e metáforas


Primeiro longa de Louis Malle, “Ascensor para o cadafalso” pode ser usado como metáfora de sua carreira. O filme começa com um diálogo apaixonado entre Florence (Jeanne Moreau) e Julien (Maurice Ronet). Focando em suas sensações, a câmera voyeurística destaca seus semblantes. Em seguida, a música de Miles Davis silencia o resto da conversa.


Esse detalhe é uma marca do filme, que alterna períodos sonoros e silêncios desconfortantes e enclausuradores, acompanhando o casal que planeja um assassinato e os revezes que a trama apresenta. Como o título aponta, o elevador tem papel determinante para um final surpreendente.


Esse trabalho entre silêncio e música remete à própria carreira de Malle, com produções americanas (na pátria do jazz) e produções europeias (que exploravam mais o silêncio como componente narrativo). Além disso, indica um recurso muito comum em seus filmes, a alteração entre beleza e desconforto, mostrando que não podemos separá-los. O amor entre Florence e Julien é visceralmente atrelado à pulsão de morte, visto que, com o assassinato do marido dela, poderão ficar juntos. A possibilidade de liberdade está ligada à possibilidade de encarceramento, pois um crime foi cometido. Essa relação é trabalhada em um plano visual com a montagem mostrando um paralelo entre a liberdade de Florence percorrendo a cidade e Julien preso no elevador. Esse encarceramento pode se estender à prisão, caso não consiga se livrar da evidência esquecida na cena do crime (uma corda, ao estilo mais hitchcockiano possível).


Ao final, essa relação se torna mais perceptível em uma fala marcante de Moreau. A saudade que Florence vai sentir do seu amado se estende à saudade que o espectador sente do filme que acabou de ver.

(Texto publicado na revista da mostra "O Jazz vai para Hollywood" parceria ACCRJ/Cinemateca do MAM - Setembro de 2019)



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