A Árvore da Vida (The tree of life), de Terrence Malick (EUA)

Por Marcelo Janot

É possível admirar "A árvore da vida", vencedor do Festival de Cannes, mesmo sem um contato prévio com o cinema de Terrence Malick. Basta notar a riqueza de elementos técnicos como a fotografia de Emmanuel Lubezki, a música de Alexandre Desplat, o desempenho magnífico do elenco (com destaque para Brad Pitt e o jovem Hunter McCracken) e a montagem desnorteante (que coube a cinco profissionais, entre eles o brasileiro Daniel Rezende), sem falar na direção de arte, nos efeitos visuais...

Comparado com Stanley Kubrick pelo rigor e maestria com que desenvolve projetos ambiciosos e bem-sucedidos artisticamente, e pelo perfeccionismo que faz com que projetos se arrastem por anos até serem concluídos, os cinco filmes de Malick guardam semelhanças estéticas e temáticas entre si. Apesar de ambientados em épocas e locações distintas, os personagens estão constantemente em transitoriedade, tentando encontrar o seu Éden em meio a exuberantes imagens de natureza. A narração em off se multiplica entre diversos personagens - e serve mais para desorientar do que para traduzir a trama.

Pela primeira vez em sua carreira, parte da ação se situa no tempo presente, e é possível reconhecer Malick em seus personagens. Ele cresceu em Waco, no Texas, era o mais velho de três irmãos, e um deles cometeu suicídio aos 19 anos na Espanha, onde estudava violão. No filme, a morte de um dos filhos da família OBrien é o ponto de partida de uma história que regressa até a formação das galáxias e a origem da vida na Terra, numa antológica sequência de cerca de 20 minutos que remete a "2001", de Kubrick. Será que Malick quis ir até o início dos tempos para mostrar a insignificância de nossa presença transitória no processo cósmico, à luz da filosofia de Heidegger, em cuja obra ele é um especialista?

Pode ser, embora o diretor se recuse a fornecer respostas para várias questões que o filme deixa em aberto. É mais simples enxergar a referência bíblica a Jó, presente desde a abertura. Mas há sempre algo mais. Quando Jack atravessa uma espécie de portal e vai parar numa praia, onde encontra o reconforto espiritual por meio da presença de todos que marcaram a sua vida, percebemos nessa mensagem otimista mais do que os desígnios de Deus para o paciente Jó. Tal cena parece mesmo é uma citação explícita de "Oito e meio", de Fellini - a mesma luz que devolveu a Guido/Fellini o vigor criativo e a esperança na vida reconcilia Jack/Malick com seu passado e cura sua dor. De quebra, nos proporciona uma obra-prima do cinema contemporâneo.

The tree of life - EUA, 2011 - Direção: Terrence Malick - Roteiro: Terrence Malick - Produção: Dede Gardner, Sarah Green, Grant Hill, Brad Pitt, Bill Pohlad - Fotografia: Emmanuel Lubezki - Montagem: Hank Corwin, Jay Rabinowitz, Daniel Rezende, Billy Weber, Mark Yoshikawa - Música: Alexandre Desplat - Elenco: Brad Pitt, Sean Penn, Fiona Shaw, Jessica Chastain, Kari Matchett, Dalip Singh, Joanna Going, Jackson Hurst, Brenna Roth, Jennifer Sipes, Crystal Mantecon, Lisa Marie Newmyer - Duração: 138 minutos

© 1982 - 2021 Associação de Críticos de Cinema do Rio de Janeiro