Melhor Filme: A Fita Branca (Das Weisse Band), de Michael Haneke (Alemanha/França/Áustria/Itália)

Por Myrna Silveira Brandão

A Fita Branca,  de Michael Haneke, Palma de Ouro em Cannes -  é um dos melhores filmes de sua carreira até agora. 

A história se passa na Prússia na comunidade protestante de um vilarejo, pouco antes da Primeira Guerra Mundial. 

A fita branca - no caso, uma imposição do pastor aos seus filhos faltosos até que o pecado fosse considerado perdoado - funciona como símbolo de manter, na vida adulta, a pureza e a ingenuidade da infância. 

Mas essa simbologia e a calma do pequeno lugarejo são perturbados por sucessivas tragédias, que parecem punições rituais. Um médico que cavalga a caminho de casa sofre um aparente acidente, mas na verdade houve uma tentativa deliberada de matá-lo. Crianças, inclusive uma portadora da síndrome de Down, são alvos de constantes violências e a história segue nessa linha. 

Como explica Haneke, o filme trata do sistema repressivo de educação que alicerçou o nazismo, conforme é descrito em muitos manuais alemães do final do século 19 e início do século 20, que ele leu antes de escrever o roteiro. 

"É um ensaio sobre o surgimento das diversas formas de terrorismo. Quando se impõe algo absoluto como princípio moral, ele acaba se tornando desumano", define o diretor que rodou o filme em preto e branco numa forma de expressar a iconografia do início do século passado.     

O desempenho dos atores é fantástico, depois de uma seleção de elenco impecável que, no caso das crianças, consumiu seis meses e 7.000 testes. Além do talento, era importante que elas tivessem um tipo físico correspondente às imagens que conhecemos do período.

O filme marca uma mudança importante na carreira de Haneke, embora ele continue com sua visão amarga da humanidade. Fica claro que o tema tratado não deve ser associado apenas à história alemã e ao nazismo, mas a qualquer sociedade que se caracterize pelo fanatismo extremo. 

Assim como no remake norte-americano de Violência Gratuita (Funny Games), a violência em A FitaBranca é implícita e mais terrível porque é sutil e intrigante. E se em Caché, Haneke fazia uma crítica à cegueira social e política da classe média francesa, neste novo trabalho aprofunda sua análise da responsabilidade e da culpa no conturbado contexto do mundo de hoje. 

"Eu cresci num ambiente judaico-cristão onde é impossível não ter noção da culpa.  Isso não é algo que eu tenha inventado, isso existe", ressalta o diretor alemão, naturalizado austríaco.   

Das Weisse Band - Eine Deutsche Kindergeschichte - Alemanha/França/Áustria/Itália, 2009 - Direção e Roteiro: Michael Haneke - Produção: Michael Katz - Fotografia: Christian Berger  - Montagem: Monika Willi - Elenco: Christian Friedel, Ernst Jacobi, Leonie Benesch, Ulrich Tukur - Duração: 144 minutos

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