A Pele que Habito (La piel que habito), de Pedro Almodóvar (Espanha)

Por Rodrigo Fonseca

Pelo planeta Almodóvar, trafegam filmes gestados no feminino, antes de ganharem universalidade unissex. São assim "A flor do meu segredo" (1995), "Tudo sobre minha mãe" (1999) e "Volver" (2006), todos regidos por eros. Para além deles, numa perspectiva mais aberta a gêneros cinematográficos como o policial, gravitam histórias de brutalidades e voracidades masculinas, sob o cabresto de tânatos, como "Matador" (1986), "Ata-me" (1990), "Carne trêmula" (1997), "Má educação" (2004) e "Abraços partidos" (2009). Curiosamente, são os longas de mais refinamento visual do cineasta espanhol. É a essa porção mais viril que "A pele que habito" se filia. A evidência inicial é o regresso de Antonio Banderas ao ninho do realizador que fez dele um "muso" nos anos 80.

Baseada no romance "Tarântula", de Thierry Jonquet, a trama está mais próxima de David Cronenberg e de Brian De Palma do que do colorido habitual de Almodóvar. E tem viradas de roteiro que, se contadas, podem estragar o fator de surpresa. 

Almodóvar relutou até em aceitar o convite para o Festival de Cannes para que ninguém revelasse quem é Vera (Elena Anaya), a cobaia do cirurgião Robert Ledgard (Banderas, perfeito), que faz experiências com humanos. Mas, como tinha chances de levar a Palma de Ouro, acabou competindo. Só conquistou o Prêmio da Juventude e da Comissão de Técnicos de Cinema pela fotografia. Mas inflamou ânimos por sugerir uma subversão não apenas de valores morais - do contrário, não seria Almodóvar -, mas de elementos da própria cartilha almodovariana. 

O longa foi apresentado como filme de horror. Causou novidade sua promessa de devassar o mundo científico. Rótulos caíram e deram lugar à afirmação de uma das identidades mais sólidas do cinema contemporâneo. A ciência entra em cena como metáfora para os jogos de submissão e dependência na dialética repulsa versus pertencimento que o cineasta sempre apresenta. É um Almodóvar puríssimo, mesmo incorporando dinâmicas de Hitchcock, Fritz Lang e Georges Franju - influência mais citada pelo cineasta.

O teste de DNA comprova que o filme tem sangue almodovariano logo no início, com Zeca (Roberto Álamo), um criminoso de origem brasileira, saudoso do carnaval da Bahia. Fantasiado de tigre, ele mostra as nádegas para que a mãe - Marília (Marisa Paredes) - o reconheça por um sinal nos glúteos. O bumbum é seu RG. E é, ao mesmo tempo, indício da irreverência de Almodóvar, que, num roteiro de ziguezagues, declara sua paixão pelo Brasil ao incluir a canção "Pelo amor de amar". Cantada em português pela espanhola Ana Mena, a música se impõe na trilha como um eco de serenidade no laboratório de heresias de Ledgard, que decanta brilhantismo cinematográfico.

La piel que habito - Espanha, 2011 - Direção: Pedro Almodóvar - Roteiro: Pedro Almodóvar e Agustín Almodóvar - Produção: Agustín Almodóvar, Bárbara Peiró Aso, Esther García - Fotografia: José Luis Alcaine - Montagem: José Salcedo - Música: Alberto Iglesias - Elenco: Antonio Banderas, Elena Anaya, Marisa Paredes, Jan Cornet - Duração: 117 minutos

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