A Troca (Changeling), de Clint Eastwood (EUA)

Por Pedro Butcher

A Troca, 28º filme de Clint Eastwood como diretor, marca sua volta aos estúdios da Universal depois de 30 anos de colaboração estreita com a Warner Bros. O tom de diálogo com o passado se estabelece logo na primeira imagem do filme, quando uma antiga logomarca da Universal, em preto-e-branco, enche a tela.

O que veremos em seguida, no entanto, está muito longe de ser um melodrama convencional. Da forma como é narrada, a história (inspirada em fatos reais) de Christine Collins e sua luta para encontrar o filho desaparecido, na Los Angeles do fim dos anos 20, ganha contornos kafkianos. Aos poucos, o suspense dá lugar a algo próximo do horror.

A estrutura do roteiro é impressionante: quando achamos que a trama se aproxima do fim, o filme se torna outro, e depois outro. Parece que se recusa a acabar, evitando assim oferecer um desfecho com explicações reconfortantes e definitivas. Eastwood consegue o raro efeito de "puxar o tapete" do espectador, sem ser desonesto.

De certa forma, A Troca prolonga e enriquece uma antiga tradição do cinema americano, que aborda a corrupção policial na "cidade dos sonhos" (Los Angeles - Cidade Proibida, Dália Negra, entre eles). Cada reviravolta acrescenta uma nova camada de complexidade tanto do ponto de vista da construção cinematográfica como do ponto de vista humano. 

(Atenção: se você ainda não viu o filme, cuidado a partir daqui, pois é difícil comentar A Troca sem revelar algumas de suas surpresas). A entrada em cena do psicopata e o papel que lhe é conferido são absolutamente perturbadores. A sequência em que ele se aproxima de Christine, no tribunal, embaralha as informações que haviam sido "organizadas" na nossa cabeça e desestabiliza o espectador por completo. Outro momento impressionante é aquele em que Christine é chamada para ver o interrogatório com um possível sobrevivente entre as vítimas do "serial killer" - uma sequência ultraemocionante e profundamente cruel. 

É, por tudo isso, que A Troca se inscreve como um dos filmes mais perturbadores da obra de Clint Eastwood - e, portanto, como peça essencial em sua rica trajetória.

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