Ad Astra – Rumo às estrelas

Por Carlos Brito

No espaço, a busca pelo pai e a busca por si mesmo

A grandiosidade de tudo o que se vê em “Ad astra – Rumo às estrelas” – e em toda a escala monumental de sua trama – está a serviço de uma ideia central muito bem delineada: a necessidade de se desprender e deixar para trás pesos do passado que comprometem uma melhor experiência da vida no presente.

 

Neste caso específico, isso é simbolizado sob a forma do quase intransponível bloqueio emocional experimentado pelo protagonista – situação causada pela relação com o pai que, há muito tempo, decidiu partir. De certa forma, James Gray já havia usado abordagem semelhante em “Z: a cidade perdida”. Aqui, no entanto, o escopo é muito mais amplo e extenso. E, para desenvolvê-lo, o realizador contará a história do astronauta Roy McBride, personagem interpretado por Brad Pitt, em uma das melhores atuações de sua carreira.

 

Obcecado pela figura paterna que há 30 anos partiu em direção ao espaço, ele ganha a oportunidade de enfim encontrá-la. Para isso, terá que aceitar a missão que o levará aos limites do Sistema Solar e ao projeto que foi concebido e conduzido por seu pai – pesquisa que, agora, ameaça colocar em risco a própria vida no planeta Terra.

 

São evidentes as influências de “Apocalypse now”, de Francis Ford Coppola, “2001 - Uma odisseia no espaço”, de Stanley Kubrick, e “Solaris”, de Andrei Tarkovsky, na construção do roteiro.

 

O diretor ainda encontra espaço para a inserção de cenas de ação tensas e convincentes – algo incomum em sua cinematografia. Atenção especial para uma sequência de perseguição na superfície lunar. Outros três aspectos devem ser destacados: a beleza fria e quase asséptica da fotografia de Hoyte van Hatema; a fantasmagórica trilha de Dev Hynes; e, talvez mais do que todos os outros aspectos presentes no filme, o caos controlado visível na superfície da interpretação de Pitt.

 

Em “Ad astra – Rumo às estrelas”, James Gray lança mão de uma gigantesca metáfora espacial para nos lembrar de um fator de importância central: o apego ao passado - seja a pessoas, seja a relacionamentos ou coisas - poderá te alienar de toda a beleza que, é quase certo, já existe em sua vida agora, neste instante, neste momento.

Ad Astra: Rumo às Estrelas (Ad Astra), de James Gray (EUA/China, 2019). Com Brad Pitt, Tommy Lee Jones,

Ruth Negga.

Aventura/Drama. Sinopse: Roy McBride é um engenheiro espacial que decide empreender a maior jornada de sua vida: viajar para o espaço, cruzar a galáxia e tentar descobrir o que aconteceu com seu pai, um astronauta que se perdeu há 20 anos no caminho para Netuno. 123 min. 14 anos.

© 1982 - 2021 Associação de Críticos de Cinema do Rio de Janeiro