Adeus Lênin (Good Bye Lenin!), de Wolfgang Becker (Alemanha)

Por Rodrigo Fonseca

Bom, reza a regra Nilson Laje dos manuais de jornalismo que não se redige texto na prima persona do singular. Mas vamos abrir uma exceção aqui. ViAdeus Lênin! (Good Bye Lenin!, 2003) num cineminha menor que o Estação Paço em Hamburgo, na própria Alemanha. Sessão das 20h. Cerca de 36 pessoas lotavam as seis fileiras de seis poltronas vermelhas cada uma. Bastaram 25 minutos de exibição e a alemãozada já vertia lágrimas nos olhos. E não é exagero de turista perdido em terra alheia. O conto de fadas moderno sobre o filho que quer reinventar o mundo com seu giz de cera imaginário para salvar a mamãe doente mexia com os brios daquele povo. O por quê? Ora, pela condição de questionar aquilo que faz com que os cidadãos da pátria de Franz Beckenbauer se contorcerem diante dos olhares alienígenas: o cisma identidário. 

Em bom português, depois que o muro caiu, e duas Alemanhas passaram a comungar da mesma economia, eles entraram em crise emocional. E agora, com a inclusão de seu primo paupérrimo, a Polônia, na União Européia, os moços estão ainda mais amedrontados, já que sabem ser esta a ponte para que os polacos invadam sua pátria, sem qualquer limitação, e roubem o bolsão de emprego que já anda meio lá, meio cá. Enfim...A questão é que o cinema teve a sensibilidade de identificar esse problema e traduzi-lo num corre-corre com o sabor sessão da tarde de pipoca amanteigada e fanta uva, sem descuidar de reservar um espacinho para a reflexão crítica sobre a realidade política de um Velho Mundo onde o turbilhão rubro do comunismo hoje é peça de museu. 

Adeus, Lênin! fala das confusões que cercam uma grande mentira. No caso, o plano de um moleque para provar à sua mãe doente que o comunismo ainda impera na metade oriental da Alemanha. O motivo da cascata: a velha senhora teve um colapso nervoso momentos antes da queda do muro e só acordou quando a estrutura política do país já estava de pernas para o ar. O médico, preocupado com o que será feito do coração da mulher diante de mágoas grandes demais, sugere que ela fique longe de grande abalos. O problema aparece aí. Como o garoto vai dizer pra ela, que é comunista de carteirinha, que tudo em que ela sempre acreditou foi jogado pra escanteio? A solução é apelar para os amigos e reconstruir tudo o que existia na velha República Democrática.

Lépido como uma boa comédia familiar sabe ser, lembrando um tantinho os quiprocós domésticos do teatro de Vianinha, Adeus, Lênin! (Alemanha, 2003) é uma história sobre farsas bem armadas e sonhos jogados na privada. Seu roteiro é fruto das memórias de juventude (e de uma boa sacada) de um velho estudante de Letras germânicas, Wolfgang Becker. O diretor é um gordinho cuja cara de gente como a gente lembra a do nosso vizinho do lado. Becker é um tipo empolgado com futebol e fã de um chope colarinho branco. Hábitos que relatou a este escriba quando passou rapidamente pelo Brasil, no início de outubro do ano passado, e conheceu toda a modorra paulista. 

O céu cinza de Sampa não tem o mesmo quê melancólico das tardes berlinenses. Mas serviu de canja para que é Becker pusesse a cachola pra refletir de que forma seu primeiro filme a ganhar projeção estrangeira para além das fronteiras européias poderia ser compreendido por um público com uma referência sócio-cultural radicalmente diferente da alemã como o povo brasileiro. Mas a preocupação do diretor foi totalmente desnecessária.

Em cartaz no Rio desde o dia de Natal, quando estreou flanqueado por adversários de peso no circuitinho (leia-se Amén, Costa-Gavras), Adeus, Lênin! emplacou bonito na preferência dos espectadores brasileiros, repetindo aqui o bom desempenho que vem apresentando mundo afora. Na Alemanha mesmo, o longa virou uma espécie de fenômeno, permanecendo em cartaz de março a dezembro, período em que arrastou cerca de 2 milhões de pessoas às salas de exibição. O número parece pequeno, mas é comparável a estrondosa (e saudável) performance de Carandiru no mercado verde-e-amarelo. Não esqueça que, apesar de ter nomes famosos como Wim Wenders e Werner Herzog, a indústria audiovisual germânica tem tantos problemas de ocupação de tela quanto a nossa, uma vez que os multiplex de lá só dão atenção aos longas made in USA. 

Mas a vitória da obra de Becker repousa não apenas em piripaques geográficos, mas em uma azeitada combinação entre uma seleção de atores que interpreta não para o umbigo, mas para dar vida aos diálogos que o diretor escreveu com os parceiros Hendrik Handloegten, Bernd Lichtenberg e Achim von Borries. Daniel Brühl, o protagonista, responsável por contar à mãe que a Alemanha ainda permanece dividida, é uma das maiores revelações do cinema europeu nos últimos anos. O garoto, nascido em 1978 em Barcelona, tem uma composição divertida, mas que jamais cai no estereótipo do aborrescente chatonildo que espoca nas comédias americanas. Ao lado dele, a veterana Kathrin Sass também demonstra maturidade cênica ao construir uma matrona frustrada, que se entrega a um déjà vu de mundo em sua adoração à causa comunista. 

Os dois emprestam uma comovente energia ao longa, que faz sua audiência de cúmplice ao descambar para uma análise emotiva desse bicho medonho que alguns chamam abandono e outros solidão. Afinal, para que servem as bandeiras senão para aglutinar gentes?

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