ALAIN RESNAIS: SENHOR DO TEMPO E ESPAÇO

Por Gilberto Silva Jr.

É bastante emblemático o fato de que, cerca de um mês antes de sua morte, em 1º de março de 2014, Alain Resnais tenha recebido do júri no Festival de Berlim um prêmio especial pela “inovação na linguagem cinematográfica” por seu último filme, Amar, Beber e Cantar. Aos 91 anos, com uma carreira que se prolongara por mais de sete décadas (seu primeiro curta, L’Aventure de Guy, realizado ainda na adolescência, data de 1936), Resnais sempre perseguiu a inquietação, tentando explorar terrenos fílmicos diversos em qualquer projeto ao qual se lançava.

 

Ciente de que o cinema é forma de expressão mais grandiosa que a realização de longas-metragens, foi nos curtas que Resnais se consagrou, com os trabalhos originalíssimos sobre artes plásticas (Van Gogh, Guernica) na década de 40, chegando ao status de artista respeitado nos anos seguintes com filmes brilhantes como Toda a Memória do Mundo, ou Noite e Neblina, até hoje, em seus 32 minutos, o filme definitivo sobre a questão do holocausto.

 

Foi somente aos 37 anos, em 1959, que lançou seu primeiro longa: Hiroshima, Meu Amor. O filme chegou no embalo dos trabalhos iniciais da nouvelle vague, capitaneada por uma geração de jovens oriundos da crítica e cujo amor ao cinema era maior que qualquer coisa. Mas vale lembrar que, apesar de ser contemporâneo do movimento e de afinidades temáticas e estilísticas, Resnais não se encaixa originalmente como um de seus membros. Pertence a uma geração anterior, e seus filmes até então já eram admirados pelo grupo de Godard, Truffaut, Chabrol, Rohmer e Rivette.

 

Hiroshima, Meu Amor, com sua narrativa fragmentada, cheia de quebras cronológicas, calcada em uma linha psicológica dos personagens, ganha um status de clássico instantâneo. Resnais já define nele a linha de manipulação do tempo e espaço que determina um norte ao longo de toda a sua carreira, e que se torna ainda mais radical em seu segundo longa: O Ano Passado em Marienbad, de 1961. A parceria com o escritor Alain Robbe-Grillet é tida por muitos como um filme “incompreensível”, e assim o será caso o espectador nele procure uma narrativa clássica com começo-meio-fim, que simplesmente inexiste. O Ano Passado em Marienbad deve ser fruído a partir de seu aspecto lúdico, uma grande brincadeira com os conceitos de espaço e tempo, que, enquanto permanece enigmática, não deixa de ser também bastante divertida.

 

Ao longo da década de 60, as experimentações narrativas seguem acompanhadas de um grau de militância em Muriel (1963) ou A Guerra Acabou (1966). Eu Te Amo, Eu Te Amo (1969) apresenta alguns sinais de cansaço, levando a um período de reflexão que resultará em apenas dois filmes durante a década de 70. Stavisky... (1974) usa a passagem do tempo para refletir sobre a construção de imagens e identidades, temática que se repete em Providence (1977), obra-prima indiscutível e talvez o mais introspectivo e simbólico dos filmes de Resnais.

 

Chega à década de 80 com um espírito renovado e com uma nova obra-prima, Meu Tio da América, no qual compara as atitudes e as emoções humanas a experimentos com ratos de laboratório, em roteiro originalíssimo de Jean Gruault. A irregularidade dos trabalhos seguintes, o descontraído A Vida é um Romance (1983) e o sombrio Amor à Morte (1984) preparam terreno para uma nova fase em sua obra, em que soma à eterna manipulação temporal e espacial um estudo sobre a paradoxal distância e proximidade entre as linguagens cinematográfica e teatral que prosseguirá até o final de sua carreira.

 

Melô (1986) é seu melhor filme, momento a partir do qual seu trabalho começa a agregar uma trupe recorrente de atores (Sabrine Azéma, Pierre Arditi, André Dussolier), à qual outros se juntarão posteriormente e da qual não se dissociará até seu último momento. Após a exploração extrema da tristeza em Melô, nos filmes seguintes a obra de Resnais, então já sexagenário, adquire um sopro de descontração e rejuvenescimento que será preservado até o último momento. À teatralidade evidente que se repete em Smoking/No Smoking (1993), soma-se o elemento musical a partir de Amores Parisienses (1997), desaguando na hilariante opereta Beijo na Boca, Não (2003).

 

A síntese dessa fase de obra surge com Medos Privados em Lugares Públicos (2006), que se configurou em grande êxito de público. Lamentável que esse mesmo público tenha desprezado os derradeiros trabalhos seguintes, Ervas Daninhas (2009), Vocês Ainda Não Viram Nada! (2012) e o premiado Amar, Beber e Cantar. Cada qual com suas características diversas, mas igualmente coerentes com o espírito do trabalho que Resnais vinha cunhando em seus últimos 30 anos, fechando, assim como John Huston (Os Vivos e Os Mortos) ou Robert Altman (A Grande Noite), sua carreira com obras nas quais prevalece uma reflexão lúcida e predominantemente bem-humorada sobre a chegada inexorável da morte.

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