Além da Vida (Hereafter), de Clint Eastwood (EUA)

Por Mario Abbade

Associado a personagens durões, Clint Eastwood demonstra há quatro décadas uma sensibilidade ímpar como cineasta nos mais variados temas. Esse predicado é oriundo do início de sua carreira como ator, quando estrelou westerns de baixo orçamento e atuou sob comando do diretor Don Siegel, seu mentor no jeito econômico de filmar. Eastwood aprimorou essas influências de forma que sua câmera registrasse os sentimentos humanos mais complexos, sem sucumbir às armadilhas do melodrama. Essa versatilidade é fundamental no desenvolvimento de "Além da vida", que reflete sobre a presumível existência da vida após a morte. Um tema polêmico que, nas mãos de certos cineastas, com certeza se tornaria piegas. 

Eastwood aborda o assunto da mesma forma minimalista com que compõe a trilha sonora do longa, com seu jazz monocórdio e melancólico. A emoção é construída com uma proposital distância, com o objetivo de causar desconforto no espectador. São escolhas que visam provocar reflexão e elucidar o medo da morte, como também a nossa condição de mortal. É um tratamento que abre possibilidades e lacunas. Percebe-se que Eastwood está mais interessado nas perguntas do que nas respostas. Isso fica evidente na constante solidão que acompanha os protagonistas que insistem na busca de seus questionamentos existenciais.

A trama escrita por Peter Morgan (roteirista de "A rainha" e "Frost/Nixon") é o elemento mais fraco do projeto. Lembra em sua estrutura a "Babel" de Alejandro Iñárritu, em que três personagens com perspectivas diferentes sobre o mesmo tema terão suas histórias cruzadas. No primeiro segmento, uma jornalista francesa (Cécile De France) vivencia um tsunami - numa sequência de tirar o fôlego, em que Eastwood demonstra como os efeitos especiais podem estar a serviço da história e não o contrário. No segundo, dois irmãos gêmeos idênticos (Frankie e George McLaren) experimentam uma trágica ruptura. E, no terceiro, um médium (Matt Damon, brilhante) tem a habilidade de conversar com os mortos ao tocar nas mãos de seus entes mais próximos. 

"Hereafter" (no original) é mais um filme audacioso de Eastwood, que não procura se repetir. Desta vez, o octogenário diretor combina elementos do cinema contemporâneo europeu com seu típico estilo herdado da narrativa clássica norte-americana dos mitológicos cineastas John Ford e Howard Hawks, entre outros. A bela cena final ilustra essa mescla com uma importante mensagem: em vez de nos preocupar com a morte, devemos valorizar a vida e aproveitar com intensidade a nossa breve passagem por este mundo.

Hereafter - EUA, 2010 - Direção: Clint Eastwood - Roteiro: Peter Morgan - Produção: Kathleen Kennedy, Robert Lorenz, Clint Eastwood - Fotografia: Tom Stern - Montagem: Joel Cox, Gary Roach - Música: Clint Eastwood - Elenco: Matt Damon, Cécile De France, Frankie McLaren, George McLaren, Jay Mohr, Bryce Dallas Howard - Duração: 129 minutos

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