
Anora
Por Ana Rodrigues
Garota indomável
Uma montanha-russa de acontecimentos, gêneros e tonalidades marcam a fluidez encantadora de “Anora”. Escrito e dirigido por Sean Baker, o filme acompanha a personagem-título, que prefere ser chamada de Ani (Mikey Madison), jovem prostituta de Nova York que conhece Vanya (Mark Eydelshteyn), o filho de um oligarca russo. Os dois vivem um conto de fadas torto até a intervenção da família do rapaz.
O infantilizado Vanya, cuja vida se limita a games, sexo, festas e drogas, chama Ani para um programa na casa dele. A relação se torna intensa e o filme passa de comédia romântica a tragicomédia, com a entrada em cena dos capangas enviados pelo oligarca, que quer saber o que o filho anda aprontando. A presença de Ani na mansão é rejeitada e um casamento furtivo em Las Vegas precisa ser anulado.
Em obras anteriores (“Tangerine” e “Red rocket”), Baker se dedicou a romper com os estigmas sobre os profissionais do sexo; em “Projeto Flórida”, contou a saga emocional de uma jovem mãe e sua filha numa Orlando periférica. Em “Anora”, partes desses dois mundos se encontram, por meio dessa jovem prostituta que quer ter o direito de ocupar um lugar no mundo que desejar.
Mikey Madison atua como um furacão. Sua Ani é indomável e acredita na possibilidade de romance e acolhimento por parte do rapaz para manter o casamento. A atriz entrega as nuances oportunistas e sonhadoras da personagem aproveitando o roteiro envolvente. Da relação de prazeres com Vanya ao embate com os capangas e a sogra, o que aparenta ser um confronto pastelão com os brutos acaba expondo a submissão ao poder econômico e à violência. A gentileza de um estranho, o capanga novato Igor (Yura Borisov), suaviza a atmosfera hostil.
Vencedor da Palma de Ouro em Cannes e dos Oscars de Melhor Filme, Direção, Roteiro Original e Montagem, todos para Sean Baker, e de Melhor Atriz, para Mikey Madison, “Anora” finaliza sua jornada com uma dor que conecta a protagonista ao espectador, a ponto de levarmos o filme conosco, para sempre.

