Argo (Argo), de Ben Affleck (EUA)

Por Mario Abbade

Depois de uma amostra em "Medo da Verdade" (2007) e "Atração Perigosa" (2010), Ben Affleck atinge a maturidade como diretor em "Argo", seu longa mais redondo. Diante da crise dos reféns no Irã, em vez de fazer um filme patriótico ou apenas empático em sua relação com o público, Affleck investe numa produção dinâmica, em que humor e drama interagem como se fossem um só. Em alguns momentos, o diretor se porta como artesão ao misturar graça e suspense de forma equilibrada - numa cartilha difícil, à la Hitchcock, soando por vezes como um veterano na direção. Além do mestre do suspense, há também uma abordagem em estilo Howard Hawks, em buscar humor em acontecimentos catastróficos.

A carpintaria que se vê na tela não é comum. Longas de ação, normalmente, são sustentados por perseguições e tiros - daí ser difícil ajustá-los sem esses recursos. Econômico na abordagem e sem firulas na câmera, o diretor prestigia as interpretações. Tudo está a serviço da história. Affleck estabelece personagens muito mais complexos do que inicialmente aparentam ser. Sua elegância e suavidade como diretor remetem fortemente a Clint Eastwood, por sua vez seguidor de John Ford, Billy Wilder, Michael Curtiz, Howard Hawks, toda uma linhagem do cinema clássico americano.

Outro mérito é não colocar os iranianos como típicos vilões. Affleck evita caricaturas e estereótipos. Imagens reais demonstram que tanto Irã quanto EUA são países de extremos. E o roteiro de Chris Terrio se preocupa em não cair em armadilhas etnocêntricas, assim como dá liberdade para que Affleck abuse da ficção ao final.

Merecem destaque também as inspiradas observações sarcásticas sobre Hollywood. A realidade é mesmo estranha: quem acreditaria que uma ópera espacial estaria sendo filmada no Irã durante a crise dos reféns? Quase todo mundo, ao que parece. "Argo" é também uma fantasia heroica dos arquétipos americanos, filme que saúda fazer filmes, com toda a sua gloriosa falsidade. Elementos díspares como glamour cinematográfico, fundamentalismo religioso, correção canadense e know-how americano se reúnem numa corrida eficientemente tensa.

O longa se passa nos anos 70 - e o diretor constrói um típico filme da época (até no logo inicial da Warner), combinando política e entretenimento. O andamento de "Argo", com a fotografia de Rodrigo Prieto e a edição de William Goldenberg, alterna serenidade e desordem: o ritmo do filme é o da realidade. Na primeira parte, um recurso usado é a câmera no tripé; em seguida, a câmera na mão, para alcançar o realismo, a situação de conflito, a claustrofobia. A justaposição de cenas na montagem, as festas de Hollywood, os ritos de passagem, a produção cinematográfica, o medo de pessoas presas no Irã, tudo é parte do choque de culturas. Desde os anos 1970, esse cenário pouco ou nada mudou: persiste até hoje.

Argo - EUA, 2012 - Direção: Ben Affleck - Roteiro: Chris Terrio - Produção: George Clooney, Grant Heslov, David Klawans - Fotografia: Rodrigo Prieto - Montagem: William Goldenberg - Elenco: Bryan Cranston, Ben Affleck, John Goodman, Taylor Schilling, Kyle Chandler, Alan Arkin, Tate Donovan, Clea DuVall, Adrienne Barbeau, Rory Cochrane, Michael Parks, Chris Messina, Michael Cassidy, Barry Livingston - Duração: 120 minutos.

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