Por Carlos Augusto Brandão

Sherazade e a crise em Portugal

 

Pode existir relação entre a história de Sherazade e a atual crise econômica e social em Portugal?  O cineasta Miguel Gomes mostra que isso é possível em sua trilogia “As mil e uma noites”.

 

Tendo como base a estrutura narrativa do clássico conto persa, o novo filme de Gomes é um épico contado em três atos: O Inquieto, O Desolado e O Encantado, com duração total de 6 horas e 21 minutos.

 

Trabalhando um ano inteiro com uma equipe de jornalistas que enviavam notícias de todo o país durante o recente mergulho de Portugal na “política de austeridade”, Gomes transforma eventos reais numa fábula, e a expressa através da voz de Sherazade (Crista Alfaiate), a mítica personagem do livro “As mil e uma noites”.

 

As histórias mirabolantes de um país arruinado pelo comando de “belzebus” – como os governantes de Portugal são descritos no filme – servem de alegorias aos contos narrados por Sherazade para entreter o cruel rei Shariar e preservar sua vida.   

 

O primeiro ato mistura material documental sobre desemprego e eleições com visões surrealistas de galos cantantes e baleias explosivas. O segundo é contado como um drama Brechtiano num julgamento ao ar livre no qual os testemunhos ficam cada vez mais absurdos. O terceiro, excêntrico e encantador, mistura a história de Sherazade com a crônica documental de um caçador de pássaros na área de Lisboa.

 

Dividido em atos sustentados por tons distintos, o épico é uma sátira política, que, mais que portuguesa, é também europeia. Como explica o diretor, cada um dos três contos traz surpresas e digressões, ancorados nas imaginações de Sherazade e adaptados aos recentes eventos da vida real em Portugal. “Havia três jornalistas que recolhiam informações sobre tipos variados de acontecimentos em Portugal e informavam ao ‘comitê central’, um grupo que é constituído pela equipe nuclear do filme. Essa equipe deveria preparar o roteiro, que poderia surgir da evocação de determinada história ou determinado acontecimento real, transformando-o numa ficção. Estávamos ancorados na realidade do que acontecia no país”, conta Gomes, que faz questão de esclarecer que o filme não é uma adaptação de “As mil e uma noites”. “Desde minha adolescência tenho uma relação forte com esse livro, mas a ideia era criar um dispositivo cinematográfico que se aproximasse da sua narrativa. Queria construir algo que fosse tão rico quanto ‘As mil e uma noites’, com todas as suas bifurcações ficcionais e que, ao mesmo tempo, fosse uma radiografia do estado de alma de um país, durante o período de um ano. Por isso definimos como baliza temporal o período entre Agosto de 2013 e Agosto de 2014, quando Portugal viveu – e continua a viver – uma grave crise econômica e social”, revela.   

 

Gomes é, sem dúvida, a liderança de uma nova onda cinematográfica portuguesa.  Comparado com a Nouvelle Vague francesa ou não, a verdade é que há muito não víamos cinema português tão complexo e, sobretudo, tão criativo.

As Mil e Uma Noites: Volume 1, O Inquieto – Portugal, 2015 - Direção: Miguel Gomes – Roteiro: Mariana Ricardo, Miguel Gomes, Telmo Churro – Produção: Luís Urbano, Sandro Aguilar, Thomas Ordonneau - Fotografia: Mário Castanheira, Sayombhu Mukdeeprom – Montagem: Miguel Gomes, Pedro Filipe Marques, Telmo Churro – Elenco: Miguel Gomes, Carloto Cotta, Crista Alfaiate, Adriano Luz, Rogério Samora – Duração: 125 minutos.

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