Ataque dos cães

Por Ricardo Cota

Cães sem dono

Minnesota, 1925. Dois irmãos fazendeiros, George e Phil Burbank, representam extremos de uma América em transição. George procura ajustar-se a novos tempos, rompendo com a imagem do homem bruto do Oeste. Veste-se seguindo a etiqueta da grande cidade, procura uma esposa servil, adequa-se a um modelo. Phil, por sua vez, é o estereótipo do alfa sujo e malvado. Aquele que conduz a fazenda à unha, mostrando destreza na cavalaria e pouca cerimônia na castração do gado.

 

O pacto entre os dois se quebra com o casamento de George e Rose. No pacote, Rose inclui o filho Peter, um jovem efeminado, estudioso, com talento para o desenho e a medicina. Um anti-Phil, que ameaça a fachada de masculinidade tóxica do seu algoz. Os personagens formam a matilha que se lança em direções não convergentes na exuberante pradaria. Rose é o elo mais fraco. Perdida no mundo de aparências, afoga-se em álcool, sem forças para defender Peter do assédio moral e sexual de Phil e da impassibilidade de George.

 

“Ataque dos cães” baseia-se em romance de Thomas Savage escrito em 1967. É um desabafo contra a homofobia. A cineasta Jane Campion fez intervenções expressivas na história, sobretudo no que se refere ao personagem Phil, que, na literatura, não se vestia como um típico vaqueiro, mas endomingado, tal qual o irmão. E optou por carregar nos contrastes. Conhecida por seu rigor na encenação, Campion apoiou-se em enquadramentos fordianos que remetem a “Rastros de ódio” (1956), embora a diretora afirme que sua maior inspiração seja George Stevens, pendendo mais para “Assim caminha a humanidade” (1956) do que para “Os brutos também amam” (1953).

 

“Ataque dos cães” reverencia o melhor da “mise-en-scène” cinematográfica, seja pelo detalhamento dos planos, com janelas, ferrolhos e portas entreabertas, enfatizando um olhar de revelação, de descoberta do oculto de cada um, seja por intermédio do design sonoro primoroso, assinado por Jonny Greenwood, que adensa a atmosfera sombria e persecutória. É um filme sobre a construção de uma sociedade individualista, onde o que se é pauta-se mais pelo que se oculta do que pelo que se apresenta. Em comum entre os personagens, apenas a espada do cão, que a todos assombra.

Ataque dos cães (The power of the dog), de Jane Campion (Reino Unido/Canadá/Austrália/Nova Zelândia, 2021). Com Benedict Cumberbatch, Kirsten Dunst.

Drama/Faroeste/Romance. Sinopse: Dois irmãos, proprietários de um grande rancho em Montana, são colocados em confronto quando um deles se casa. 126 min. 14 anos.

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