Pequena sala, grande contribuição ao cinema

Raphael Aguinaga e Raphael Camacho, os responsáveis pela revolução do Cine Joia

Por Zeca Seabra

Muitos dos que passam em frente à galeria localizada na Av. Nossa Senhora de Copacabana nº 680 não se dão conta de que lá dentro existe um cinema com uma história muito empolgante. É o grande pequeno Cine Joia, com apenas 87 assentos e uma programação de alto nível, que conseguiu uma posição invejável no circuito carioca, modificando algumas diretrizes engessadas das distribuidoras, que não viam o circuito alternativo com bons olhos.

 

A ACCRJ reconheceu o ineditismo e o valor desta contribuição elegendo a programação do Cine Joia como destaque no ano de 2014. Os principais responsáveis por esta mudança de paradigma são o sócio-gerente Raphael Aguinaga e o programador Raphael Camacho. Ambos conseguiram reciclar o conteúdo “mofado” que ficava nas prateleiras das distribuidoras, resgatando-os para o público e ampliando o portfólio da programação cinematográfica no Rio de Janeiro.

 

Inaugurado em abril de 1969, o Cine Joia (cujo nome homenageia a matriarca da família Valansi, dona do imóvel e da Companhia Cinematográfica Franco-Brasileira) funcionou precariamente até 2005, quando foi fechado. Após uma grande reforma, o cinema foi reaberto em abril de 2011 sob o comando do empresário, cineasta e poeta (como prefere ser reconhecido) Raphael Aguinaga, que assumiu o posto de sócio-gerente e imediatamente posicionou a sala numa grata periferia da programação cultural da cidade. No inicio, a sala exibia filmes de um catálogo com 400 títulos, que variavam entre novidades, reprises e longas que estavam saindo de circuito. Em janeiro de 2013, com o trágico incêndio na boate Kiss em Santa Maria (RS), o Cine Joia, vítima da burocracia, foi impedido de funcionar por quase três meses, o que provocou uma grande reação nas redes sociais. Após resolver o impasse, o cinema turbinou sua programação com a entrada do crítico Raphael Camacho, que adotou medidas radicais, quebrando paradigmas e reciclando um farto e rico material renegado pelas distribuidoras.

 

O gosto pela arte e a empolgação pelo cinema fazem parte da vida de Aguinaga e de Camacho, que têm a mesma base profissional e o mesmo nome (Raphael, com “ph”).

 

Quando tinha 20 anos, Raphael Aguinaga foi para São Paulo trabalhar com o mercado de investimentos. Paralelamente, lançou um livro de poesias, Meus Versos, e produziu um curta-metragem, exercitando sua paixão pelas artes. Em 2006, em Santo André, ele exibia filmes no ginásio onde trabalhava e aos 32 anos pediu demissão para estudar roteiro na França. Em seu retorno ao Brasil, em 2008, iniciou a produção independente de seu primeiro longa-metragem (uma coprodução entre Brasil e Argentina), intitulado Juan e a Bailarina (La Sublevacion), finalizado em 2011.

 

A ideia de ser dono de um cinema surgiu quando Aguinaga começou a estudar o mercado cinematográfico brasileiro e achou falhas gritantes na composição da programação do país. Seu lado empreendedor queria conciliar o mundo artístico com o empresarial, e ele decidiu montar um negócio cuja proposta era diminuir a carência de salas. Aguinaga acredita que a magia do cinema é uma experimentação de arte coletiva e que o preço alto e a programação ruim afastam o público deste encantamento. O Cine Joia veio resgatar o respeito pelo espectador, pois é um espaço aberto repleto de projetos negociáveis, fazendo parcerias com grupos de interesses específicos (instituições, escolas, cursos, representações diplomáticas etc.) para promover determinados filmes, oferecendo assim um perfeito casamento do entretenimento com a educação.

 

Raphael Camacho tentou entrar no mundo do cinema de todas as formas. Largou o emprego com informática, escreveu dois livros (O Guia do Cinéfilo volumes 1 e 2) e colaborou com alguns sites sobre o assunto. Os conhecimentos travados ao longo de sua jornada o levaram a conhecer Aguinaga, que estava sem tempo para atender às demandas crescentes do Cine Joia. O convite foi feito e a parceria foi formada. Sua função é democratizar a tela, negociando com os distribuidores que desconhecem o material que tem em mãos.

 

Eleito em maio de 2014 pela revista da Emirates como um dos sete principais cinemas independentes do mundo, o Cine Joia tem captação de som e imagem digitais e é um modelo a ser copiado, pois é uma sala que se adapta ao lugar onde está localizada e proporciona uma leitura individual ao espectador.

A programação de 2015 promete surpresas e projetos interessantes (como a Mostra Tarantino), debates, entrevistas, exibições de clássicos e produções premiadas que não encontram espaço no circuito carioca.

 

Sem lugares reservados e com sete a oito sessões por dia (algumas custando apenas R$ 5), o Cine Joia é um militante do ineditismo e um emblemático sobrevivente que amplia o conteúdo romântico que o cinema oferece.

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