
Conclave
Por Ricardo Largman
Homens nada santos
Secular e arcano, a escolha de um novo papa assemelha-se, sob diversos aspectos, à típica trama de um filme de suspense. O processo de votação, que pode se prolongar por semanas, a clausura dos cardeais, os encontros secretos, as intrigas e os ciúmes velados, a cor da fumaça: cada detalhe pode ser interpretado, ou usado, como um elemento natural na construção do roteiro de um thriller.
Tal percepção inspirou o escritor britânico Robert Harris a conceber, em 2016, o livro “Conclave”, adaptado para as telas de cinema em filme homônimo do mesmo diretor de “Nada de novo no front”, o alemão Edward Berger. Comprovadamente eficiente em cenas de ação, o cineasta arriscou-se a tentar manter a atenção do espectador com, de um lado, um enredo pontuado por reviravoltas e, de outro, o brilho de um elenco estelar (liderado por Ralph Fiennes, Stanley Tucci e John Lithgow em grandes performances). Berger acertou duplamente. Ao longo de exatos 120 minutos, ele descreve, com a precisão de um historiador, e o faro de um bom detetive, os rituais e — o que é mais sedutor — os bastidores da votação do Colégio de Cardeais.
Praticamente toda a ação tem como cenário o interior da Basílica de São Pedro. Lá, durante os dias que antecedem o anúncio do nome do pontífice eleito, clérigos prestigiados, representantes de cinco continentes e de vertentes diversas da Igreja Católica revelam-se em segredos, fazem lobby e levam suas predileções, de toda sorte, ao paroxismo. Num ambiente em que deveria prevalecer o bom senso, certa harmonia e, acima de tudo, humildade, o que mais se vê são homens que, de santos, pouco têm.
“Conclave” traz críticas nada sutis à polarização política dos novos tempos, em especial quando esta surge em nome da religião. O filme também cumpre a missão de ilustrar, mesmo que com alguma licença poética, um universo desconhecido até há pouco por nós, simples mortais. De quebra, com uma narrativa tensa e intensa, mantém o espectador em suspense até o último minuto.

