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As Montanhas se Separam (Shan he gu ren), de Zhang-ke Jia (China / França / Japão)

Por José Carlos Avellar

Um filme de Fenyang

Dos muitos diretores que mostram seus filmes ao festival com a expectativa de um reconhecimento no final da mostra, um já foi premiado antes mesmo de exibir seu filme. Na cerimônia de abertura da Quinzena dos Realizadores Jia Zhang-ke recebeu o prêmio Carosse d’Or da Sociedad de Realizadores e Produtores Franceses “pelas qualidades inovadoras de seu cinema, pelo rigor e originalidade de seus modos de dirigir e produzir filmes”. A exibição de “Mountains may depart” na competição não só confirmou o acerto do prêmio na abertura da Quinzena como ocasionou a primeira reação de entusiasmo em Cannes, tanto na projeção para críticos e jornalistas quanto na sessão de gala para o público do festival.

 

O titulo original, “Shan he gu ren”, é feito de três ideogramas, “Montanha”, “Rio” e “Amizade”, para montar uma frase que que pode ser traduzida por “velhos amigos são como a montanha e o rio”, explicou Zhang-ke. O titulo para distribuição internacional, “Mountains may depart” (mais ou menos: “As montanhas podem se mover”), funciona como um contracampo do título chinês, mas para Jia “expressa o mesmo sentimento”.

 

Três ideogramas no título, três épocas, 1999, 2014 e 2025, três diferentes formatos de imagem e um triângulo amoroso. Para a primeira época, em que a jovem Tao se divide entre dois pretendentes, Liangzi, um trabalhador da mina de carvão, e Jinsheng, um empreendedor que deseja comprar a mina, o clássico formato 1:33, próximo do quadrado dos filmes antes do scope. Para a segunda época, 2014, tela panorâmica, 1:85. Para a terceira, 2025, cinemascope. Ao longo das três épocas e do triângulo amoroso que abre a narrativa uma outra travessia pela China contemporânea, semelhante à proposta no filme anterior do diretor, Um toque de pecado, com distribuição comercial no Brasil no ano passado, mas ainda proibido pela censura chinesa. Uma travessia, como a do filme anterior, mas por uma outra estrada, onde em lugar da violência imediatamente visível temos maior atenção às pequenas mudanças no dia a dia das pessoas, que ou preparam ou coexistem com a violência de Um toque de pecado – como se o novo filme e o anterior se relacionassem assim como os dois títulos de “Mountains may depart”, um como contracampo do outro.

 

A narrativa começa em Fenyang, cidade natal do cineasta, na província central de Shanxi, e termina na Austrália, para onde, depois de se divorciar de Tao, Jinsheng migra com o filho Dollar – nome escolhido pelo pai para garantir um futuro bem-sucedido. Entre a China continental e a Austrália, um breve tempo em Hong Kong, onde Liangzi adoece pelo longo tempo de trabalho em minas de carvão e logo desaparece da história.

 

Assim, campo, contracampo e fora de quadro compõem esse filme que, para Zhang-ke, nasceu de notas filmadas nos últimos anos. “Dez anos atrás, conseguimos uma câmera digital e filmamos muito. Não eram testes com o equipamento, mas anotações. Não tinha ideia precisa do que iria fazer com essas imagens. Há três ou quatro anos, com uma câmera de melhor qualidade, voltei a filmar notas. Destas sequências registradas nos intervalos de meus filmes precedentes nasceu a ideia de “Mountains May Depart”. A comparação das imagens feitas há dez anos – elas pareciam vir de um mundo longínquo – com as filmadas recentemente sugeriram um filme construído em torno da passagem do tempo, em torno do que muda nas pessoas com o tempo, na China em particular o que mudou com a introdução do dinheiro como um valor na sociedade. O deslocamento no tempo, não só o deslocamento no espaço, permite compreender o que fazemos. Por isso, 2025. De um futuro imaginado, examinamos o tempo presente”.

 

Quadro, fora de quadro, deslocamentos. A questão que o filme nos conta está igualmente, ou principalmente, no modo de contar. Em imagens de um prolongado tempo interno, os personagens entram e saem de quadro, desaparecem e são reencontrados pela câmera ou se convertem em presença que se revela apenas pelo som. Nenhuma construção metafórica, destaca, “mas imagens e sons que podem ser trabalhadas livremente pelo espectador”: aviões, helicópteros, trens, carros, um permanente deslocamento. “Go west” numa discoteca em 1999, “canção muito popular desde o final da década de 1980, quando eu estava na universidade” comenta Zhang-ke. “Nela me interessa mais a ideia de movimento, ‘go’, do que ‘west’, a direção do movimento”. Um caminhão carregado de carvão atolado numa estrada. Uma série de explosões na beira do rio – “no começo da primavera é preciso dinamitar o gelo acumulado no inverno para que o rio possa seguir seu rumo natural, e para nós as explosões na beira do rio anunciam que com a primavera chegava o tempo de namoros”. Um tigre enjaulado num jardim zoológico. Um pequeno avião, monomotor, que perde o rumo e bate na montanha. Uma discussão entre pai e filho sobre a liberdade – “aqui, na Austrália, tenho permissão para comprar um revólver ou um fuzil”, diz o pai antes de perguntar: “liberdade é isso?”.

 

Montanha, rio, amizade são temas comuns nas tradicionais pinturas de rolo chinesa, observou uma jornalista russa (talvez com a lembrança do ensaio de Eisenstein sobre o modo de representar a passagem do tempo nessas pinturas como exemplo para o cinema). “É o tema de meu filme”, repetiu Zhang-ke, “a relação entre nossos sentimentos e o tempo. Só podemos compreender o que sentimos levando em conta o passar do tempo. Como vivo na China, no meio das enormes transformações do país, na área econômica e também no comportamento dos indivíduos. Nosso modo de viver foi profundamente alterado com a irrupção do dinheiro no centro de tudo. Proponho algumas imagens, comparo as etapas de algumas vidas com a paisagem em volta a montanha e o rio ao fundo, para estimular as pessoas a se servir delas para propor outras”.

 

Em julho, no cinema do IMS, o documentário “Jia Zhang-ke, um homem de Fenyang”, de Walter Salles, e mais um conjunto de filmes do diretor como um ponto de partida para uma viagem cinematográfica ao que Zhang-ke define como “uma certa noção de amizade característica da gente de Fenyang, noção que se exprime em chinês pelos caracteres Qing Yi, uma lealdade aos amigos forte como o rio e a montanha”.

 

José Carlos Avellar

Cineasta, curador e crítico de cinema, foi coordenador da área no IMS de 2008 até março de 2016, quando faleceu.

 

Texto publicado originalmente no Blog do IMS em 21/5/2015.

As Montanhas Se Separam (Shan He Gu Ren) - (China, 2015), de Jia Zhang-ke. Com Jing Dong Liang, Tao Zhao, Yi Zhang, Zijian Dong. Romance. Sinopse: Uma história em três partes que se inicia no fim da década de 1990 e acompanha Tao, bela jovem da província de Shanxi que se vê dividida entre dois pretendentes, seus amigos de infância Zhang e Liangzi. Um é herdeiro de um posto de gasolina, enquanto o outro trabalha em uma mina de carvão, e as consequências da decisão da mulher reverberam em 2014 e 2025. 126 min. 12 anos.

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