Certo Agora, Errado Antes (Jigeumeun Matgo Geuttaeneun Teullida), de Sang-soo Hong  (Coréia do Sul)

Por Gilberto Silva Jr.

O que não foi e o que poderia ter sido

Em 20 anos de carreira como cineasta – sua estreia data de 1996 – Hong Sang-soo já lançou 18 longas-metragens. “Certo agora, errado antes” é o penúltimo deles e apenas o quarto a ter lançamento comercial no Brasil, o que ocorreu pela primeira vez com “HaHaHa”, de 2010. É muito pouco para aquele que pode ser considerado um dos autores essenciais do cinema contemporâneo. Mais que qualquer outro diretor em atividade no momento, Hong Sang-soo investe em trabalhar de forma radical a máxima que afirma que “um verdadeiro autor faria sempre o mesmo filme”.

 

Considerando o primeiro texto que escrevi sobre ele, em 2005, após o contato com apenas dois de seus títulos, é impressionante verificar que tudo que está lá continua valendo pra qualquer dos seus filmes aos quais se assista, como é o caso de “Certo agora, errado antes”. Temos as narrativas em dois ou mais tempos que se espelham ou complementam; protagonistas que são artistas – geralmente cineastas – em encontros fugazes, momentâneos, que, no entanto, parecem definir toda sua existência, encontros esses que inexoravelmente, apesar de sua intensidade, não parecem determinar relações ou mudanças duradouras em suas vidas; a ação que invariavelmente acompanha os personagens em deambulações constantes em que se fala o tempo todo e quase sempre se bebe demais. Para os personagens de Hong, nesse ou qualquer outro filme, a bebida faz parte de sua essência de forma indissociável.

 

“Certo agora, errado antes” representa o ponto máximo de depuração no estilo de Hong Sang-soo, que consegue trabalhar há 20 anos sem arredar o pé um milímetro sequer de seu projeto de cinema. Seu estilo, que invariavelmente ecoa na obra de Eric Rohmer, prima pela limpidez e objetividade de um trabalho de câmera, que se caracteriza numa discreta complexidade, cuja precisão de movimentos e reenquadramentos definem mudanças nas atitudes e estados de espírito dos personagens. No filme em questão, a opção pelos dois tempos narrativos, em que a história retorna ao seu princípio, ressalta a tese que pequenas mudanças nas atitudes dos protagonistas, todas sublinhadas pela encenação do diretor, determinariam, como diz o título, diferentes destinos, no caso igualmente frustrantes, para o seu relacionamento.

 

Hong faz aqui aquela que até agora é sua obra-prima maior, uma reflexão sobre a vida, não naquilo que ela é de fato, mas sobre aquilo que não foi e aquilo que poderia ter sido. Tudo banhado em diálogos de uma riqueza espantosa e de um humor bastante peculiar ao seu criador, posto que o diretor-roteirista sul coreano é certamente o melhor escritor de diálogos do cinema atual. “Certo agora, errado antes” é o ponto culminante de uma obra que, apesar da recorrência incessante de um mesmo universo, temática e estilo, surpreende a cada novo trabalho, sempre de forma positiva, e merecia indiscutivelmente maior divulgação e repercussão entre o público brasileiro.

Certo Agora, Errado Antes (Ji-geum-eun-mat-go-geu-ddae-neun-teul-li-da) - (Coréia do Sul, 2015), de Hong Sang-soo. Com Jae-yeoung Jung, Kim Min-Hee, Joon- sang Yoo, Ko Ah-sung.

Drama. Sinopse: Por engano, Ham Cheon-soo (Jae-yeong Jeong) chega à cidade coreana de Suwon um dia antes do previsto. Para passar o tempo, ele vai até um antigo palácio, onde encontra uma artista chamada Yoon Hee-jeong (Kim Min-Hee). Juntos, eles vão até a loja de Yoon para admirar suas pinturas, comer sushi e se conhecerem. Em seguida, eles vão para um bar encontrar com amigos de Yoon. Ao ser perguntado se é casado, Cheon-soo admite que sim e decepciona a artista. 121 min. 12 anos.

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