O Cavalo de Turim (A Torinói Ló), de Bela Tarr (França / Suíça / Hungria / Alemanha)

Por Pedro Butcher

Crônica do fim do mundo

Em um período de 32 anos, entre 1979 e 2011, o cineasta húngaro Béla Tarr realizou 15 filmes entre curtas, longas e obras para a televisão. É uma obra relativamente pequena, portanto, mas certamente uma das mais influentes de seu tempo. Tarr tem pelo menos duas obras-primas: o (literalmente) imenso “Satantango”, de 1994, cuja projeção dura 7h30, e o mais curto (2h30) porém tão imenso quanto “A harmonia Werckmeister”, de 2000. “Satantango”, em especial, é citado por um punhado de cineastas contemporâneos como referência essencial. Gus Van Sant por exemplo, diz que o filme transformou seu modo de ver o cinema e que “Elefante” (2003) não existiria sem ele.

 

Exibido no Festival de Berlim de 2011, “O cavalo de Turim” foi apresentado por Tarr como seu derradeiro longa-metragem. A partir deste ano o mestre húngaro se aposentaria da realização para se dedicar exclusivamente ao ensino.

 

Apesar da grande influência, há também quem veja Béla Tarr com restrições. Uma parte da crítica e dos realizadores o considera demasiado “estetizante” pelo uso da fotografia em preto e branco altamente contrastada, dos planos longos e da música. Tarr, de fato,

tem (e defende) algo que está fora de moda nas rodas do cinema autoral: a estilização.

 

O uso da música talvez seja o mais forte exemplo de uma opção que o coloca à margem de determinadas tendência. Enquanto nove entre dez filmes autorais contemporâneos farão uso da música exclusivamente em caráter diegético (isto é: ela só entra no filme quando fizer parte da narrativa, cantada ou ouvida por um personagem), Tarr recorre aos temas de seu parceiro Mihály Vig como um elemento de forte impacto.

 

“O cavalo de Turim” não é diferente. Um conhecido episódio da vida de Nietzsche serve de ponto de partida para uma crônica sobre a finitude das coisas. Tudo começa com palavras que, sobre a tela escura, narram o episódio que inaugurou a fase final da vida do filósofo alemão, quando ele se deparou com um cavalo violentamente chicoteado por seu dono e, chorando, abraçou o cavalo. Depois disso, nunca mais voltou a se expressar segundo as convenções da razão, até morrer.

 

O que o filme apresenta, em seguida a essa história, não é uma reprodução ou algo que se pareça com uma continuidade explícita do episódio – o único elemento que faz um elo entre o prólogo e os capítulos que se seguem é a presença de um cavalo puxador de carroça. O que acompanhamos, a partir daí, é rotina de um pai e de uma filha em

uma casa isolada.

 

Sem dar pistas óbvias, Béla Tarr nos entrega seu filme-catástrofe, uma espécie de desconstrução de um épico bíblico da criação do Universo. Aqui, é uma cosmologia que se desfaz. Sinais de escassez e desesperança vão se acumulando ao longo desses dias, como que anunciando um fim próximo.

 

“O cavalo de Turim” é extremamente fiel ao estilo de Béla Tarr e, no entanto, como todos os seus filmes, extremamente original. O cineasta não vê o cinema como uma pura reprodução/emulsão do real, mas como algo que parte do real para produzir arte e pensamento.

O Cavalo de Turim (A Torinói ló) - (Hungria, 2011), de Béla Tarr. Com Erika Bók, János Derzsi, Mihály Kormos, Ricsi. Drama. Sinopse: O velho fazendeiro Ohlsdorfer (Janos Derzsi) e sua filha (Erika Bok) dividem um cotidiano dominado pela monotonia. A realidade dos dois é observada pela vista da janela e as mudanças são raras. Enquanto isso, o cavalo da família se recusa a comer e a andar. O filme é uma recriação do que teria ocorrido com o animal após ter sido salvo da tortura pelo filósofo alemão Friedrich Nietzsche durante uma viagem a Turim, na Itália. 146 min. 14 anos.

© 1982 - 2021 Associação de Críticos de Cinema do Rio de Janeiro