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Homenagem Hector Babenco

Por Ana Rodrigues

A poesia da sobrevivência

Em 2010 eu estava num táxi em Sydney e o motorista, de Bangladesh, comentou impressionado o filme “Carandiru”, que assistira na noite anterior na TV australiana: “Naquela prisão, cada homem tinha sua história e lutava para viver”.

 

Sobrevivente da miséria, o taxista captou o cinema de Hector Babenco: a luta universal pela vida através de dramas pessoais. A experiência cinematográfica é de observação de como o indivíduo lida com o mundo que se apresenta.

 

Nascido em Mar Del Plata, Babenco saiu da Argentina porque não queria servir no Exército. Aos 17 anos, veio para o Brasil, onde adotou a cidadania. Aqui se apaixonou por nosso jeito de sobreviver. Babenco morreu aos 70 anos de parada cardiorrespiratória no dia 13 de julho de 2016, após sofrer por anos de um câncer linfático. Dirigiu 10 filmes, e mais um trabalho de direção coletivo, dois documentários e uma minissérie para TV. A estreia foi com o documentário “O fabuloso Fittipaldi” em 1973.

 

Em “Lúcio Flavio, o passageiro da agonia”, sucesso de 1977, a história real de um assaltante de bancos e as ações do Esquadrão da Morte, a polícia assassina durante a ditadura militar, já destacavam a questão sobrevivência. A ação tem a linguagem da rua crua com o capricho do encenador.

 

Em 1981, a mais impactante junção de cinema documental e poesia da realidade estreava. Com “Pixote, A lei do mais fraco”, Babenco abre o filme situando a vida do ator amador, o menino Fernando Ramos da Silva, morador de uma comunidade carente. Revivendo o Neorrealismo italiano e o Cinema Novo, o longa mostra a perda da infância, denunciando o sistema perverso da Febem. O diretor revela a tentativa de construção de um núcleo familiar. O garoto de olhos tristes e seus amigos formam uma célula e encontram na prostituta Sueli, da extraordinária Marília Pêra, a figura materna que lhes falta. Numa cena chave, Babenco retrata Sueli como a sagrada figura de uma Madona. “Pixote” conquistou prêmios internacionais, mas Fernando morreria anos depois baleado numa favela paulista.

 

A vida no cárcere foi tema também de “O beijo da mulher aranha”, que rendeu ao diretor uma indicação ao Oscar e, ao ator William Hurt, os prêmios da Academia e de Cannes.

 

Babenco também trouxe a memória como destaque já em seu primeiro longa de ficção, “O rei da noite”, em 75. Ele voltaria a retratar lembranças em “Coração iluminado”, o filme favorito dele, dirigido na primeira fase do câncer, que retoma pedaços da juventude na Argentina; “O passado”, com Gael Garcia Bernal, em que retrata a perda da memória; e no dilacerante “Ironweed”, com Meryl Streep e Jack Nicholson. O sucesso internacional proporcionou ainda a Babenco a direção de “Brincando nos campos do senhor”, do produtor Saul Zaentz com roteiro de Jean-Claude Carrière. Sobrevivência e memória se encontrariam em seu último longa, “Meu amigo hindu”.

 

Hector Babenco acreditava que, após a exibição, o importante é que o espectador fique com a imagem gravada. Para ele, um filme deveria deixar uma lembrança como se fosse um poema, um perfume.

 

Filmografia

1973 – O fabuloso Fittipaldi

1975 – O rei da noite

1977 – Lúcio Flávio, o passageiro da agonia

1981 – Pixote: A lei do mais fraco (+) (%)

1984 – A Terra é redonda como uma laranja

1985 – O beijo da mulher aranha (*) (**) (#) (##)

1987 – Ironweed

1991 – Brincando nos campos do senhor

1998 – Coração iluminado (#)

2003 – Carandiru (#)

2005 – Carandiru, outras histórias – episódios Love Story I e II

2007 – O passado

2014 – Words with gods (segmento The man that stole a duck)

2015 – Meu amigo hindu

 

(*) Indicado ao Oscar de melhor diretor

(**) Oscar de Melhor Ator para William Hurt

(+) Indicado ao Globo de Ouro melhor filme estrangeiro

(#) Indicado a Palma de Ouro em Cannes

(##) Prêmio de Melhor Ator em Cannes para William Hurt

(%) Prêmio de Melhor Filme Estrangeiro– Associação de Críticos de Los Angeles

Meu Amigo Hindu - (Brasil, 2015), de Hector Babenco. Com Willem Dafoe, Maria Fernanda Cândido, Reynaldo Gianecchini, Selton Mello, Bárbara Paz. Diego (Willem Dafoe) é um cineasta diagnosticado com câncer terminal, cuja única chance de sobrevivência é se submeter a um transplante de medula óssea experimental, que apenas é realizado nos Estados Unidos. Assim, ele parte para Washington mas antes decide se casar e se despedir dos amigos. Já no hospital, ele conhece um menino hindu de apenas oito anos, que também está internado. Logo Diego passa a vivenciar com ele aventuras fantasiosas, inspiradas no cinema, que ajudam a suportar a dura realidade que os cerca. 124 minutos. 14 anos.

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