Cry macho: O caminho para redenção

Por Mario Abbade

Questionando a imagem de homem durão

A um primeiro olhar, Clint Eastwood ganhou em seus filmes certa fama de homem que resolve tudo com tiro, porrada e bomba. Foram principalmente os papéis de policiais implacáveis e de caubóis lacônicos que o ajudaram a construir essa imagem de sujeito resoluto que pode dobrar a lei para fazer o que julga ser o certo. Só que o astro sempre afirmou, em entrevistas, que aceitou tais papéis para que pudesse escolher seus projetos pessoais como diretor. Assim, existe uma grande diferença entre seus trabalhos autorais e aqueles em que foi contratado para interpretar essa “persona” criada pelos estúdios. Por isso não surpreende que em “Cry macho: O caminho para redenção”, Clint Eastwood esteja justamente questionando a imagem do homem durão construída ao longo de mais de 60 anos.

 

Na trama, Eastwood interpreta Mike Milo, um ex-astro de rodeio que aceita a tarefa de apanhar no México e levar de volta para casa, no Texas, o jovem filho (Eduardo Minett) de um ex-chefe seu. A caminho de casa, porém, a dupla enfrenta desafios. O filme é uma espécie de mistura dos subgêneros “neo western” (faroeste moderno) e “road movie” (filme de estrada), em que a jornada rende aprendizados para os personagens. No caso, ao colocar um idoso experiente ao lado de um jovem desajustado, o longa propõe uma reflexão sobre o papel do macho na sociedade, levantando a questão sobre o que realmente significa ser homem e o que se espera de um.

 

A produção é baseada no livro homônimo de N. Richard Nash, que cria a expressão “cry macho” (a manha do macho) com duplo significado: refere-se tanto à sensibilidade do homem quanto à sua esperteza para resolver uma situação sem uso da violência. Além do contexto da trama, vemos um ator sem medo de se libertar de uma efígie (uma corporatura), entregando uma interpretação sensível por meio de uma rica linguagem cinematográfica, em que a “mise-en-scène” equilibra-se perfeitamente com a narrativa. Tudo com o adendo do subtema do poder civilizatório da mulher, algo com que John Ford já havia presenteado o público no lendário western “Paixão dos fortes” (1946).

 

Versão editada do texto publicado no jornal “O Globo” em 15/9/2021.

Cry Macho: O caminho para redenção (Cry Macho), de Clint Eastwood (EUA, 2021). Com Clint Eastwood, Dwight Yoakam.

Drama. Sinopse: Criador de cavalos, um antigo astro de rodeio aceita levar o jovem filho de seu ex-patrão para longe da mãe alcoólatra. Ao longo da jornada, o sujeito encontra a redenção ensinando ao rapaz o que significa ser um bom homem. 104 min. 12 anos.

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