Diário de uma Busca, de Flávia Castro (Brasil)

Por Daniel Schenker

Flávia Castro se coloca de forma corajosa como personagem de seu próprio filme. Em "Diário de uma busca", destaca o convívio com o pai, o militante Celso Afonso Gay de Castro, que morreu em circunstâncias nebulosas dentro do apartamento do alemão Rudolf Goldbeck, ex-cônsul do Paraguai, aos 41 anos, na Porto Alegre de 1984. "Pensar no meu pai significava pensar em sua morte. Como se, pelo seu enigma e sua violência, ela tivesse apagado sua história e, junto com ela, parte da minha", afirma Flávia, no início da projeção.

Movida pela evocação da morte misteriosa de Celso (que teria  invadido o apartamento de Goldbeck junto com o amigo Nelson Heredia), Flávia Castro empreende uma viagem rumo aos seus primeiros anos de vida. Traz à tona ecos da infância no exílio em países como Chile e Argentina. Procura traduzir sua sensação de criança com o irmão, ambos envolvidos num cotidiano excepcional ao lado dos pais - vinculados, durante a década de 70, à guerrilha - em aparelhos, sempre correndo o risco de serem descobertos. Revela, por meio do depoimento de sua mãe, Sandra, o estranho processo de separação dos pais. E lembra da partida para a França, onde se deparou com uma Paris mais luminosa.

Toda essa história começou a ser resgatada em 2002. As filmagens foram interrompidas e retomadas em 2007. "Diário de uma busca" surgiu, portanto, de uma necessidade de elaboração de Flávia Castro, feita cerca de 30 anos depois dos acontecimentos relacionados aos anos de chumbo que reverberaram diretamente na trajetória de sua família. Flávia retornou às casas onde morou naquele tempo e empreendeu uma presentificação do passado. A diretora não parece ter lidado com uma pauta estabelecida com rigidez de antemão. Ao contrário, demonstra ter descoberto o filme à medida que o realizava. 

A natureza íntima do projeto não é evidenciada "apenas" por meio das falas em off de Flávia Castro, que atravessam "Diário de uma busca", mas dos depoimentos de outros familiares (avó, mãe, irmão, tia) e da constante leitura de cartas pessoais escritas com o intuito de suprimir distâncias e diminuir a sensação de elos interrompidos. Apesar de reunir experiências dolorosas, Flávia sublinha períodos de convívio harmonioso, a exemplo das férias com o pai numa ensolarada Venezuela, pelo menos em parte parecida com o saudoso Brasil.

Brasil, 2010 - Direção: Flávia Castro - Roteiro: Flávia Castro - Produção: Flávia Castro - Fotografia: Paulo Castiglioni - Montagem: Flávia Castro - Música: Patrícia Portaro - Duração: 104 minutos

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