Dor e Glória

Por Daniel Schenker

Agonia e êxtase

Em “Dor e glória”, de Pedro Almodóvar, o cineasta Salvador e o ator Alberto não se viam há 32 anos, desde que trabalharam juntos em “Sabor” e se desentenderam. É difícil não estabelecer conexão entre essa relação ficcional e o elo entre Almodóvar e um ator central em sua filmografia da década de 1980, Antonio Banderas, que interpreta Salvador (atuação que rendeu o prêmio de melhor ator no Festival de Cannes). Tomando como base o período de afastamento entre os personagens, Banderas participava, há 32 anos, de uma das mais destacadas realizações da carreira de Almodóvar: “A lei do desejo” (1987). Em todo caso, o hiato entre Almodóvar e Banderas, apesar de longo, foi menor: durou entre “Ata-me” (1989) e “A pele que habito” (2011).

 

“Dor e glória” pode ser visto como um filme sobre reencontro – de Salvador com sua história de vida. O gatilho é o convite para que Salvador e Alberto (papel de Asier Etxeandia) conversem com o público após uma sessão de “Sabor”, recentemente restaurado pela cinemateca. A retomada do contato entre os dois, de início algo amarga, logo se torna amistosa. Cada vez mais movido pela necessidade de externar experiências particulares por meio da arte, Salvador escreve um texto de natureza autobiográfica, que tem pudor em assinar. Alberto encena o texto no teatro, circunstância que acaba reaproximando Salvador de Federico (Leonardo Sbaraglia), com quem teve ligação amorosa. As lembranças da infância no vilarejo, marcado pelo vínculo intenso com a mãe (Penélope Cruz/Julieta Serrano), também são aproveitadas como matéria-prima artística.

 

A jornada de Salvador é atravessada por impactos contundentes no próprio corpo. No presente, a agonia impera: abalado por dores crônicas que quase o paralisam, ele envereda pela heroína na companhia de Alberto, buscando na droga uma espécie de suspensão da realidade, até encontrar uma nova forma de administrar o sofrimento. No passado, a evocação de um instante de êxtase se impõe: a desestabilização física diante da nudez do pedreiro Eduardo (César Vicente).

 

Para completar, o caráter pessoal do terreno trilhado por Almodóvar se traduz nas diversas referências espalhadas no decorrer da projeção – a começar pela produtora El Deseo, que fundou com o irmão Agustín e vem à tona por meio de “El primer deseo”, título do filme que Salvador prepara; e, no universo estético, a julgar pela habitual predominância do vermelho e do azul, com resultado que jamais soa repetitivo.

Dor e Glória (Dolor y gloria), de Pedro Almodóvar (Espanha/França, 2019). Com Antonio Banderas, Leonardo Sbaraglia, Penélope Cruz.

Drama. Sinopse: Salvador Mallo é um melancólico cineasta em declínio que se vê obrigado a pensar sobre as escolhas que fez na vida quando seu passado retorna. 113 min. 16 anos.

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