Druk - mais uma rodada

Por Rodrigo Fonseca

Saideira para entorpecer a dor

Chancelado para a posteridade por 50 prêmios relevantes, entre eles o Oscar de Melhor Filme Internacional, e coroado com uma bilheteria de US$ 12 milhões, “Druk - Mais uma rodada” é o triunfo da resiliência de um realizador no apogeu de seu ímpeto criativo, o dinamarquês Thomas Vinterberg, que não se deixou dobrar pela mais irreparável das tragédias pessoais: a perda de uma filha.

 

Em 2019, no quarto dia de filmagem dessa dramédia sobre parcerias, num set repleto de amigos com os quais trabalha desde os tempos do Dogma 95 e do cult “Festa de família” (1998), o cineasta recebeu uma ligação da ex-mulher, Maria, que lhe tirou o sorriso e o chão sob os pés. Naquele dia, a filha deles, Ida, de 19 anos, havia morrido, vítima de um acidente de trânsito.

 

Então imerso em um projeto que define como “um ensaio sobre a perseverança em meio aos excessos”, o realizador pensou em parar tudo, imerso no luto e na lembrança de que um dos papéis principais fora escrito para a jovem. Seria a estreia de Ida nas telas, interpretando uma personagem de peso. Parte do longa-metragem seria rodado na escola da moça, tendo seus amigos como figurantes.
 

Parceiro do diretor no sucesso “A caça” (2012), o ator Mads Mikkelsen esteve ao lago de Vinterberg todo o tempo e foi a primeira pessoa a ouvi-lo dizer: “Não faz sentido a gente não continuar.” Num encontro com a imprensa, durante o 68º Festival de San Sebastián, na Espanha, em setembro de 2020, o diretor contou que Ida amava aquela história, batizada mundialmente de “Another round”, e que ela havia dito estar orgulhosa do pai por ele investir numa trama de “volta por cima”. Ali, no papo com Mikkelsen, ele percebeu a relevância do que tinha nas mãos: um filme que afronta o moralismo, prospectivamente, celebrando o companheirismo. O alicerce para as reflexões libertárias de Vinterberg é a saga etílica do professor de História Martin, que se une a uns amigos num experimento regado a álcool como forma de superar sua frustração.

 

Ovacionada em San Sebastián, a produção saiu de lá com um prêmio coletivo para os atores: Mikkelsen (que vive Martin), Thomas Bo Larsen, Magnus Millang e Lars Ranthe. E lá mesmo consagrou a antológica sequência em que Mikkelsen dança ao som da canção “What a life”, gravada por Scarlet Pleasure, num brinde à vida.

Druk – Mais uma rodada (Druk), de Thomas Vinterberg (Dinamarca, 2020). Com Mads Mikkelsen, Thomas Bo Larsen.

Drama/Comédia. Sinopse: Quatro amigos, todos professores do ensino médio, testam a teoria de que melhorarão de vida se mantiverem um nível constante de álcool no sangue. 117 min. 16 anos.

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