Eduardo Coutinho - A voz do outro

Por Carlos Brito

Jornalistas – pelo menos os melhores – sabem que não existem entrevistados desinteressantes. A obra de Eduardo Coutinho reforça essa afirmação e confirma um conhecimento antigo: cada rosto, cada indivíduo guarda uma carga de experiências e emoções muito vasta. No cinema brasileiro, ninguém deixou isso tão claro quanto ele.

 

Por meio de seus documentários, a noção de que nenhuma vida é apenas comum e banal ganhou uma nova dimensão – mais humana, emocional e profunda.

 

Aos 21 anos, Coutinho – nascido em 1933 – era um estudante de Direito que nutria, desde a infância, interesse profundo pelo cinema. O primeiro passo concreto para entrar na sétima arte acontece em 1954, quando participa de um seminário no Museu de Arte de São Paulo.

 

Após trabalhar como revisor da extinta revista Visão, Coutinho parte para um período de estudos no Institut de Hautes Études Cinématographiques, em Paris – experiência que ele mesmo não considerou muito positiva. De lá, retornaria para dar início à sua carreira cinematográfica, passando a integrar o Centro Popular de Cultura da União Nacional dos Estudantes (UNE).

 

É neste momento que começa a escrever roteiros para Zelito Viana, Eduardo Escorel, Bruno Barreto e Leon Hirszman. Com este último, colaborou em Pedreira de São Diogo, um dos segmentos do longa Cinco Vezes Favela.

 

Em 1962, Coutinho encabeçou o projeto UNE-Volante, cujo objetivo era documentar a reforma universitária em cidades do interior do Brasil. Nesse período, conhece, em Sapé, na Paraíba, Elizabeth Teixeira, viúva de João Pedro Teixeira, líder assassinado da Liga Camponesa local. O encontro o motiva a iniciar o projeto Cabra Marcado Para Morrer, longa de ficção que contaria a história do crime e da luta pela reforma agrária na região. Dois anos depois, a produção tem início.

 

Após um conflito com homens da Polícia Militar e funcionários de usinas locais, as locações são transferidas para Engenho Galiléia. Depois de 35 dias de trabalho, o registro é interrompido pelos militares em 1º de abril de 1964, um dia após o golpe.

 

Coutinho volta a trabalhar com Leon Hirszman em Garota de Ipanema, Maioria Absoluta e A Falecida. Ele também dirige os filmes Faustão e um dos segmentos de ABC do Amor.

 

Em 1975, o realizador recebe convite para integrar o Globo Repórter – ali ele permaneceria por nove anos, ficando à frente das produções O Menino de Brodósqui, sobre o pintor Cândido Portinari, O Pistoleiro de Serra Talhada, que abordava crimes nordestinos, Seis Dias em Ouricuri, reportagem sobre a seca no Sertão, entre outras produções. Foi neste período que optou por seguir, de maneira definitiva, o caminho de documentarista.

 

Valendo-se da anistia decretada em 1981, Coutinho, enquanto ainda trabalhava na Rede Globo, decide retomar Cabra Marcado Para Morrer. Ele reencontraria Elizabeth e os outros integrantes da Liga Camponesa e finalizaria o projeto sob a forma de documentário. Em 1984, a produção conquistou 12 prêmios e consolidou o nome do cineasta como um dos mais importantes documentaristas do país.

 

Foi o início da consagração, dentro do cinema brasileiro, do formato estabelecido por Coutinho. A câmera próxima ao entrevistado – a não mais que dois metros de distância –, a interferência perceptível do entrevistador, a presença explícita da equipe de filmagem, a valorização dos planos longos e dos silêncios e vazios e, sobretudo, a capacidade de extrair verdades íntimas – divertidas, tocantes, tristes, terríveis – de quem se dispunha a depor para sua câmera.

 

Essas características passam a ser vistas de forma mais intensa nos documentários que viriam a seguir. Em 1999, o realizador apresenta Santo Forte, mergulho radical na religiosidade de pessoas que vivem numa favela carioca. Por meio de depoimentos sobre fé, o registro explicita, também, as relações interpessoais, e como cada uma daquelas pessoas interage com parceiros e familiares, bem como expõe uma série de questões sociais.

 

Abordagens semelhantes seriam vistas nos seus dois trabalhos posteriores: Babilônia 2000, de 2000, e Edifício Master, de 2002. Neste último, após permanecer durante quase um mês num prédio em Copacabana, o cineasta e sua equipe extraem fragmentos da vida de dezenas de personagens, escancarando a paisagem interior das pessoas escondidas por trás de cada uma daquelas portas. O resultado é surpreendente.

 

Após Peões, de 2004, e O Fim e o Princípio, feito em 2005, Coutinho brinca com os limites que existem entre o documentário e a ficção em Jogo de Cena, no qual mulheres que responderam a um anúncio no jornal falam sobre suas vidas. No entanto, pelo menos quatro relatos são feitos por atrizes, que interpretam depoimentos colhidos anteriormente.

 

Coutinho ainda apresentou ‘Moscou’, de 2009, e ‘As Canções’, de 2011, antes que sua vida fosse interrompida de maneira trágica no dia 2 de fevereiro de 2014.

 

“Não há necessidade humana maior que a de ser ouvido”, Coutinho costumava dizer. Poucos entenderam essa condição como ele.

© 1982 - 2021 Associação de Críticos de Cinema do Rio de Janeiro