Encontros e Desencontros (Lost in Translation), de Sofia Coppola (EUA/Japão)

Por Marcelo Janot

Poucos são os cineastas que, com apenas dois filmes no currículo, já podem se orgulhar de possuir uma obra. Sofia Coppola está entre estes privilegiados. A filha de Francis Ford Coppola pulou do berço de ouro já alfabetizada na língua cinematográfica e trilhou um caminho próprio. Tanto em "As Virgens Suicidas", seu filme de estréia, quanto emEncontros e Desencontros (Lost in Translation, 2003), ela alcança o intento de traduzir os dilemas e angústias da alma feminina. E com a experiência de seus 20, 30 anos, Sofia vai fundo no "mal do século" que Todd Haynes tão bem diagnosticou em "Safe": a solidão.

É como se o mundo não aprendera a lição deixada pelo suicídio das cinco irmãs naquela distante década de 70 retratada em "As Virgens Suicidas", e desde então  tivesse evoluído apenas tecnologicamente, não espiritualmente. Na Tóquio dos painéis luminosos e da overdose de cores e ruídos que para muitos lembrará a nova-iorquina Times Square, os personagens principais de "Encontros e Desencontros" são verdadeiros alienígenas perdidos nesse universo sem tradução ("Lost in Translation", o título original). 

Charlotte e Bob são almas que vagam sem rumo, inconscientemente tentando fugir da ditadura do lucro e das relações superficiais em que se vêem enjaulados. Não importa se ela tem vinte e poucos anos e é casada há dois, ou se ele tem cinqüenta e tantos e já está nas suas bodas de prata: o mal que acomete o mundo moderno mostrado por Sofia Coppola não é um fenômeno generacional.

Expostos salutarmente pelas lentes de Sofia Coppola estão os atores Scarlett Johansson e, especialmente, Bill Murray. Cada olhar, cada gesto dele em seus encontros com os alienígenas de olhinhos puxados rendem "gags" que desviam o rumo do filme para momentos da mais pura comédia pastelão. Aliás,Encontros e Desencontros é um filme tão sem rumo quanto seus personagens, que podem estar numa aula de hidroginástica e no momento seguinte numa casa de videokê. O único ponto de convergência é o hotel, com seus amplos corredores e bares cinzentos - menos do que um refugo, é um complemento daquela selva exterior. 

Sem ter para onde fugir, os protagonistas se exilam na cumplicidade de um com o outro. É nesse universo pessimista e melancólico que se desenvolve uma das mais belas histórias de amor do cinema recente. Uma história de amor que, graças à inteligência do roteiro, se realiza muito mais no plano espiritual do que no plano carnal. Charlotte e Bob fazem amor apenas através do olhar, de um leve toque de um na canela de outro, deitados vestidos na mesma cama, e finalmente de um sussurro no ouvido que encerra o filme de forma magistral, coroando a vingança da preservação da intimidade contra a evasão de privacidade a que muitos de nós nos auto-condenamos.

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