Estômago, de Marcos Jorge (Brasil)

Por Marcelo Janot

Há muito tempo o cinema nacional não conseguia produzir um filme com vocação para o entretenimento tão inteligente. O que fascina emEstômago é a forma como o filme nos faz compartilhar com o protagonista Nonato a sua descoberta de um mundo que é totalmente novo para ele, mas velho para quem sabe que o gorgonzola não é um queijo estragado e que o vinho deve ficar deitado na adega. Há uma porção de piadas e situações recorrentes que nos fazem rir como se estivéssemos sendo apresentados a elas naquele momento, e isso se deve a um roteiro que utiliza primorosamente a palavra como escada do gesto. Em grande parte, isso se deve ao talento de João Miguel e seu timing perfeito para a comédia. 

Estômago foi feito em regime de co-produção com a Itália, o que explica a quantidade de referências à cultura italiana. Nonato vai trabalhar num restaurante italiano que se chama "Boccaccio 70", e há uma atmosfera felliniana que permeia a narrativa, explicitada na personagem Íria, a prostituta glutona. 

As súbitas mudanças de registro ao longo do filme, sobretudo quando imagens de preparo de comida surgem em câmera lenta, acompanhadas de música suave, num clima quase onírico, soam como uma bela homenagem ao cinema de Sergio Leone e seus heróis-forasteiros, simples e de soluções engenhosas. Em especial os flashbacks oníricos das lembranças de James Coburn na obra-prima "Quando Explode a Vingança".

Estômago não é tratado sociológico e nem levanta discussões éticas/ideológicas. É, isto sim, um belíssimo filme que sacia nossa fome de diversão inteligente.

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