Fahrenheit 11 de Setembro (Fahrenheit 11/9), de Michael Moore (EUA)

Por Jaime Biaggio

Num ano em que tanto cineastas consagrados quanto iniciantes se dedicaram a estudar o comportamento e refletir sobre as bandeiras de jovens utopistas, Michael Moore investiu toda a sua invejável energia numa utopia prototípica, das que alimentam o deboche dos cínicos: fez um filme com o intuito declarado de mudar o mundo. O fato de não ter conseguido só torna ainda mais exata esta comparação e ainda mais importante o seu filme, um endosso da arte - e, mais ainda, do entretenimento - como ferramenta de formação política, ideológica e cultural, a ser utilizada da forma que convir a cada um.

À franqueza de sua militância, Michael Moore soma o conhecimento do mundo no qual transita, suas tribunas privilegiadas e obstáculos intransponíveis.Fahrenheit 11 de Setembro (Fahrenheit 9/11, 2004) foi planejado, mercadológica e artisticamente, como cinema de resultados; tinha uma missão a cumprir e a consciência de que o prazo para isso era de poucos meses. No ramo da produção artística, em que vigora a utopia da imortalidade, da não-vigência de prazos de validade, da obra-que-anos-depois-permanece-atual, o projeto de Moore já se destacava pela consciência prévia da descartabilidade imposta por sua própria ambição de ter uma "função prática". Passado o dia da eleição presidencial norte-americana, perderia por completo sua razão de ser.

A temporalidade, longe de ser uma fraqueza deFahrenheit 11 de Setembro, é o elemento-base a partir do qual Moore formata seu filme. Construído como agit-prop, conceituado a partir da urgência emprestada dos noticiários de TV, o filme canaliza sensações e opiniões do diretor sobre o presidente George W. Bush e sua gestão e as organiza de forma a um só tempo maquiavélica e apaixonada. A narração em off de Moore, noutros filmes marcada por puro sarcasmo, aqui adquire tom quase irado em dados momentos e francamente sentimental em outros, em especial o terço final.

A apresentação dos fatos segue o estilo habitual, que os mais ingênuos chamam de manipulador (como se o cinema em si não o fosse, sempre) e desonesto (já a partir do deboche do prólogo, em que sonha com uma vitória de Al Gore na eleição de 2000, Moore faz de "Fahrenheit 11 de Setembro" um filme 100% honesto). Mas o envolvimento de Moore é patente já a partir de sua virtual ausência da tela, tirando sua figura já famosa e as associações que o público possa fazer a ela do caminho das imagens documentais. 

Erguendo uma estrutura que prescinde de sua "liderança", Moore evidencia o quão habilidoso é como editor de imagens e sons, capaz de criar dramaturgia na sala de montagem a partir exclusivamente de material colhido de diversas fontes. É no segundo terço do filme, o que se dedica à invasão do Iraque, que isso se percebe com mais clareza. Visto meses depois do pleito em Washington, Fahrenheit 11 de Setembro torna-se um filme ainda mais amargo, justamente pelo desencanto que fica automaticamente adicionado à sua pregação. Ironicamente, na aparente derrota que sofreu na ambiciosa meta de derrubar um presidente a que se propôs, o filme se imbui da atemporalidade que sequer buscava.

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