Melhor filme: Fale Com Ela (Hable con ella)

de Pedro Almodóvar (Espanha)

Por Susana Schild

A primeira reação diante da leitura da sinopse deFale com Ela (Hable com Ella, 2002) pode gerar uma compreensível perplexidade: dois homens descobrem a amizade a partir do amor que devotam a mulheres em estado de coma. "Mas isso dá filme?" pode indagar o espectador, mesmo o mais acostumado às excentricidades de Pedro Almodóvar e à sua desmedida imaginação na criação de personagens e relações fora de padrões de "normalidade". Pois foi com esse fio condutor que Almodóvar não só realizou talvez o melhor filme de sua carreira como uma obra de impactante beleza e alta densidade emocional. No cerne da trama, um sentimento meio fora de moda: a genuína compaixão pelo ser humano.

Fale com Ela começa sem palavras, apenas com os sons de um espetáculo de Pina Bausch. Na platéia, dois homens que não se conhecem assistem ao balé: o jornalista Marco (o argentino Daria Grandinetti), que mal disfarça as lágrimas, e o enfermeiro Benigno (Javier Cámara), que sorrateiramente percebe a emoção do espectador ao seu lado. Depois do teatro, a vida. Marco envolve-se com uma toureira, Lydia (Rosario Flores). Recém-saída de uma decepção amorosa, Lydia é vigorosa, impetuosa, contraditória: enfrenta touros na arena, mas treme de medo diante de uma cobra. Uma tarde, Lydia é ferida e levada para um hospital em coma irreversível. Em quarto ao lado, Benigno zela, há quatro anos, por Alicia, também em coma.

Benigno era um rapaz solitário e depois de cuidar 20 anos da mãe passou a devotar seu amor a uma jovem bailarina que via através da janela. O rapaz consegue estabelecer contato com Alicia, que fala da sua preferência por filmes mudos (ausência de palavras). Alicia á também filha de um psiquiatra, com quem Benigno marca uma sessão hilariante - decididamente, Almodóvar não acredita na cura pela palavra convencional. Alicia sofre um acidente. E ninguém melhor - até no nome - que Benigno para zelar pela mulher de seus sonhos convertida a um corpo supostamente inerte sobre a cama, mas mesmo assim (ou por isso mesmo) capaz de incendiar a fantasia e o desejo deste estranho anjo da guarda. É com evidente prazer que Benigno vira, desvira, lava, alisa, massageia Alicia. E para Benigno, "falar" com Alicia, contar filmes, peças, o cotidiano, é tão natural como cortar seus cabelos que teimam em crescer ou constatar a regularidade do ciclo menstrual. Alicia, obviamente, não responde com palavras, mas sua existência é vital para Benigno. Como escreveu Fernando Pessoa em "Eros e Psique", "ele sem ela, é ninguém".

Já Marco fica paralisado diante do corpo de Lydia e reage à tragédia com rigidez e silêncio. E é com conhecimento de causa que Benigno dá um conselho a Marco: "Fale com ela (Lydia)". E justifica: "As mentes das mulheres são misteriosas". E de certa forma Almodóvar não tem feito outra coisa a não ser debruçar-se sobre esse mistério em vasta e diversificada galeria, de Mulheres à Beira de um Ataque de Nervos a Tudo Sobre Minha Mãe.

O encontro Marco/Benigno dará margem a desdobramentos imprevisíveis e antecipá-los seria estragar o prazer do espectador de se deixar conduzir por uma narrativa rigorosamente elegante e segura por parte de Almodóvar. Pode-se dizer que Benigno vai às últimas conseqüências de sua devoção por Alicia. E Marco, a partir desta amizade tão inusitada, se vê confrontado com sentimentos extremos e de grande ambivalência. Em uma das multas cenas antológicas do filme, os rostos de Marco e Benigno separados por um espelho se fundem sob um apelo de Benigno: "Fale comigo".

Fale com Ela poderia representar um manual do melodrama, com personagens perturbados, coincidências implausíveis, sobrecarga de tragédias, incidentes rocambolescos, não fosse o agudo sentido de busca do essencial dos personagens que Almodóvar exercita com notável liberdade e maestria, sem abrir mão do humor. A direção é impecável em todos os aspectos - fotografia (Javier Aguirresarobe, interrompendo uma longa parceria com o brasileiro Afonso Beato), montagem, elenco, incluindo atuação arrasadora de Javier Cámara e sensível participação de Geraldine Chaplin. Sem falar na façanha de filmar um corpo sem movimento com altas doses de erotismo e sensualidade.

Com total domínio narrativo, Almodóvar divide a trama em capítulos, e não se constrange em inserir um impagável filme mudo no meio da história - paródia de O Incrível Homem que Encolheu - ou fazer uma pausa para o solo de Caetano Veloso em Cucucurucu Paloma.

De perto ninguém é normal, já foi um dos lemas de Caetano Veloso, assumidamente um dos ídolos de Pedro Almodóvar. E é também dessa fronteira entre normal e o "anormal", e do poder da palavra como contato e as conseqüências de atos genuinamente amorosos que fala Almodóvar neste filme que mostra, despudoradamente, o amor como elemento transformador. Fale com Ela termina onde começou: no teatro, diante de um espetáculo de dança de Pina Bausch. Na platéia, personagens renovados e (ainda) separados por uma cadeira vazia. Arrebatador.

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