Assassinato em Gosford Park (Gosford Park), de Robert Altman (Reino Unido/EUA/Itália)

Por João Marcelo Ferreira de Mattos

Assassinato em Gosford Park (Gosford Park, 2001) é um daqueles filmes que vale não só por sua unidade básica, o que está claramente na tela (por si só já é interessante) mas pelo que representa no conjunto da obra de seu diretor e bem além disso. Por má-fé, às vezes proposital, às vezes involuntária, alguns cinéfilos e críticos costumam amar os diretores norte-americanos mais por sua energia criativa bruta e intuitiva, seu artesanato que permite a ele investigar e construir idéias complexas que a priori, não seriam óbvias na realização dos filmes. Quando um diretor norte-americano quer claramente "pensar", muitos o depreciam, e isto ocorre com Robert Altman, cuja reputação, que já foi notável, tem declinado. Ele diversas vezes tratou do lado oculto do "sonho americano" (uma obsessão para muitos) de uma maneira bastante clara e muitas vezes os formadores de opinião (dos EUA e de todo mundo) têm predileção por idéias enviesadas sobre o país em filmes não tão claros em suas intenções percucientes - pelos motivos exemplificados acima.

Por tudo isso Assassinato em Gosford Park, mais recente "pensata" do cineasta, misto de sátira social e drama policial, serve como uma espécie de metáfora (simultaneamente solene e cheia de informalidade) de tudo que já foi mencionado, numa bela amplitude. O filme não é uma obra-prima, tampouco é um novo A regra do jogo (clássico francês de Jean Renoir que tem história parecida), mas encanta com sua trama que reúne um grupo de aristocratas e/ou ricaços (que irão caçar) e seus criados, numa suntuosa propriedade campestre inglesa em 1932, com o desenrolar mostrando conflitos de classes e um crime.

A partir de roteiro cujo argumento inicial é dele mesmo, o diretor desenha, sem vulgaridade e panfletarismo óbvio, a esnobice pegajosa e esclerose emocional da alta classe (até explicando como elas surgem), o ressentimento social e a autocomiseração crescente da criadagem (ótimas cenas em que os criados reproduzem entre eles as disputas dos bem-de-vida), só que evitando que tudo isso se transforme num fácil festim de distribuição de culpas permeado por sarcasmo indolente.

Há pequenos equívocos como a cena metalingüística do produtor falando do filme que fará (parecido com as coisas que vão rolar na mansão) e certas dispersões de ritmo (mesmo, não resultante de improvisações). Mas no todo, o cineasta faz um filme menos de trama (a criminal é bobinha em si, vale pelo que representa como forma cultural), do que de clima, atmosfera, sutileza, delícias de diálogo e jogo de interpretações, tudo costurado à "maneira Altman" de fazer filmes-painéis (às vezes improvisando um pouco ou muito) com grande números de personagens e tramas interligadas (uma de suas especialidades e um dos vícios ruins de certo cinema independente dos EUA), sejam em lugares próximos uns ao outros ou como neste caso, num mesmo cenário.

Gosford Park tal como em outras dessas obras do diretor, e na maior parte do tempo (por uma larga margem), flui, "corre" com admirável desenvoltura, pois Altman narra as historinhas internadas como fragmentos de "contos", sem onipotência nem mão frouxa "recorta" e "cola" pessoas e pequenas fatias de vida sobre um panorama maior, que, porém, como macro não se antepõe ao micro; é o contrário das enormes e pesadas tramas em si de certos filmes-painéis, "mini-romances" um dentro do outro - tipo Tim Robbins em O poder vai dançar.Contribuem para isso, o trabalho de câmera sempre inteligente, às vezes "visível" (caso de O Jogador, aliás, estrelado por Tim Robbins), aqui mais suave como pede a trama, embora em quase tudo que faça Altman exista uma assinatura formal tão discreta quanto presente e reconhecível.

Em Gosford Park, o diretor, esse peculiar "ser pensante" vindo da "bastarda" TV para fazer seus filmes "conscientes", equaciona o encontro (literalmente e de forma refratária) da Hollywood com quem ele mantém relação estranha (e do qual não deixa de continuar a fazer parte), e do cinema independente que ele representa de uma maneira especial, enfim do Novo Mundo dos EUA, com o Velho Mundo da Europa inglesa, do esquema de vida na alta sociedade da Inglaterra e a parte da cultura de massa desse país (o modelo de romance policial encarnado pelo detetive vivido por Stephen Fry), e no meio disso tudo as noções de alta e baixa cultura.

É um filme cuja "inteligência" é tão "evidente" que nele devemos trabalhar a retirada do que possa ser verniz, para melhor extrair o genuíno, o verdadeiro, a sua real sabedoria. No que tem de melhor (e tem muito), o ótimo Assassinato em Gosford Park é híbrido e múltiplo tal como seu criador.

© 1982 - 2021 Associação de Críticos de Cinema do Rio de Janeiro