Homenagem ao cineasta Carlos Reichenbach

Por Leonardo Luiz Ferreira

O cinema nacional não perdeu somente um dos seus principais representantes em um fatídico dia de junho de 2012, mas uma das melhores pessoas com quem se podia debater cinema ou, simplesmente, falar sobre a vida. Carlos Reichenbach viveu intensamente, a mais de 24 quadros por segundo, e deixou um legado de 15 longas e uma dezena de curtas, além de inúmeros projetos inacabados e roteiros não realizados, pois, como todo grande realizador brasileiro, enfrentou dificuldades para filmar no próprio Brasil. O homem se foi, entretanto a sua obra continua mais viva e relevante do que nunca, sempre à espera de revisões e descobertas.

Não houve nenhuma área do cinema na qual Reichenbach não tenha participado de alguma forma. Ao longo de seus mais de 45 anos de carreira, ele desempenhou papeis diferentes na sétima arte, como câmera, montador, fotógrafo, roteirista, compositor, crítico, diretor, produtor e professor. Portanto, Carlos foi o legítimo homem do cinema: um apaixonado pelo audiovisual que transformou a cinefilia da adolescência em profissão para toda a vida. Quem pôde conferir alguma sessão de seu cineclube ("Reduto do Comodoro"), lia o seu blog ("Olhos Livres") ou teve o privilégio de compartilhar de sua presença seja num debate ou numa mesa de bar sabe o quanto era apaixonante Carlos Reichenbach, que transmitia o seu fascínio pelo cinema como quem traduz o sentido da vida para um ente próximo.

Proveniente da geração do cinema marginal paulistano, a denominada Boca do Lixo, a mesma que revelou os gênios José Mojica Marins, Rogério Sganzerla e Júlio Bressane, dentre tantos outros, Carlos foi, sem dúvida, quem construiu um corpo de trabalho mais longevo e consistente com suas propostas estéticas e autorais, que mesclavam o cinema oriental (Imamura, Mizoguchi) com a preocupação social do neorrealismo italiano (Rossellini), porém sem perder a verve anárquica que marcou suas principais obras, como "Filme Demência" (1985) e "Amor, Palavra Prostituta" (1980). 

A grande lição de Reichenbach para novos diretores foi manter seu espírito sempre jovem desde o primeiro plano em sua estreia até o take final de seu último trabalho, o longa "Falsa Loura" (2007). De uma ponta a outra em uma carreira de muitos percalços e realizações pessoais, Carlos escreveu o cinema à sua maneira: repleto de tesão, mas sem perder a ternura jamais. Afinal, viver é morrer um pouco a cada dia, e mestre Carlão viveu o seu sonho chamado cinema. 

Filmografia:
2007 - Falsa Loura
2005 - Bens Confiscados
2004 - Garotas do ABC
2003 - Equilíbrio & Graça (curta-metragem)
1999 - Dois Córregos
1994 - Olhar e Sensação (curta-metragem)
1993 - Alma Corsária
1990 - City Life(episódio: Desordem em Progresso)
1986 - Anjos do Arrabalde
1985 - Filme Demência
1984 - Extremos do Prazer
1982 - As Safadas (episódio: A Rainha do Fliperama)
1981 - O Paraíso Proibido
1981 - O Império do Desejo
1980 - Sangue Corsário (curta-metragem)
1980 - Sonhos de Vida (curta-metragem)
1980 - Amor, Palavra Prostituta
1978 - A Ilha dos Prazeres Proibidos
1977 - Sede de Amar
1974 - Lilian M: Relatório Confidencial
1973 - O Guru e os Guris (produtor e diretor de fotografia)
1972 - Corrida em Busca do Amor
1970 - Audácia (episódio: A Badaladíssima dos Trópicos X os Picaretas do Sexo)
1968 - As Libertinas (episódio: Alice)
1967 - Esta Rua tão Augusta (curta-metragem)

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