Homenagem – Michelangelo Antonioni: O Passageiro – Profissão Repórter (Professione: repórter, Itália/Espanha/França)

Por Leonardo Luiz Ferreira

Michelangelo Antonioni afirmava que não poderia ser considerado um teórico sobre cinema, pois não conseguia traduzir em palavras o seu trabalho: "todas as minhas opiniões acerca da sétima arte estão contidas em meus filmes". A obra desse grande artista fala por si só, através da força imagética - a essência cinematográfica - e revela um realizador preocupado em questionar a existência e refletir sobre a alma humana em uma filmografia que se inter-relaciona e se torna cada vez mais atual. 

Filho de uma família de classe média, Antonioni cresceu no seio da burguesia italiana. Assim como todo o mundo, ele se surpreendeu com o neo-realismo italiano (movimento que colocou a câmera nas ruas para deflagrar a Itália destroçada pela guerra), o que o motivou a seguir carreira como cineasta. Apesar de sua primeira obra-prima, "O Grito" (1957), ser ambientada em um povoado campesino e formado por operários, é no mergulho nas agruras da classe alta que ele vai focar grande parte de seu trabalho. Este, em síntese, versa sobre a incomunicabilidade e a dificuldade de amar entre os seres. 

Em O Passageiro - Profissão Repórter (1975), Antonioni coloca seu personagem principal, David Locke, em constante deslocamento num road movie que passeia por inúmeras locações. Quanto mais a narrativa se intensifica, menos David parece encontrar um rumo em sua jornada emocional de extrema angústia - a exemplo de Claudia, que opta por desaparecer, sem explicações, em "A Aventura" (1960). Os personagens antonianos, em sua maioria, estão sempre em fuga, sem imaginar um porto de chegada. É através da fragmentação do espelho e do estilhaçamento da própria imagem que conseguem  ver o mundo com outros olhos e tentam recomeçar. Porém, a melancolia e o trágico os norteiam de forma irremediável. 

Locke é um repórter cansado da feiúra que enxerga em toda parte. A sua pulsão principal passa a de ser o outro. E a oportunidade surge quando encontra seu vizinho de quarto morto: ao assumir sua identidade, imagina se ver livre de todos os problemas que lhe atormentam, entre eles o casamento fracassado e a frustração profissional. Existem até breves momentos de liberdade, como a vontade de voar sobre o mar; entretanto, para um existencialista não basta apenas mudar o nome ou a foto do passaporte: o passado sempre continua a rondar como um fantasma. Não importa o local ou as diferenças culturais e econômicas, o maior temor do homem moderno é o de ser estranho a si mesmo. E Antonioni filmou esse sentimento como ninguém.

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