Homenagem – Ingmar Bergman: Morangos Silvestres (Smultronstället, Suécia)

Por Luiz Fernando Gallego

Quando Ingmar Bergman morreu, em 30 de julho de 2007, foi difícil não lembrar uma das imagens mais famosas do Cinema que ele mesmo havia encenado em O Sétimo Selo: o jogo de xadrez entre um cavaleiro medieval e um homem de rosto branco como o de um clown, só que sempre muito sério e envolvido em um capuz negro que se prolongava em uma ampla capa igualmente negra. Esta passou a ser a representação emblemática da Morte no imaginário da contemporaneidade ocidental, substituindo a caveira com foice da Idade Média. A existência como um jogo de xadrez onde a Morte sempre vence.

Além da finitude de cada existência (a morte presenciada desde a infância quando acompanhava os rituais fúnebres dirigidos por seu pai, um severo pastor protestante), outro tema central na extensa filmografia do diretor é a fugacidade das relações amorosas. Talvez um corolário da outra obsessão, a transitoriedade e absurdo da vida quando entendida como criação de um Deus silencioso e inacessível que nos relega, antes da inevitável partida, à solidão, doenças, desespero, dor física e até ao que Bergman chamava de "uma espécie de dor de dente na alma". Alma que ele imaginava tendo um interior úmido e vermelho como os cenários de "Gritos e Sussurros", não por acaso, filme que aborda uma agonia antes do desenlace. A alma como capaz de uma hemorragia.

O fim dos relacionamentos já era metaforizado através do breve verão sueco em dois de seus filmes seminais, "Juventude" e "Mônica e o Desejo" (cujos títulos em sueco seriam mais bem traduzidos como "Jogos de Verão" e "Verão com Mônica"), nos quais os pares se dissolviam pela morte propriamente dita ou pelo não menos fatal desamor. Tal como o verão que sempre se esvai. 

A morte, sempre anunciada, como no sonho de abertura de Morangos Silvestres, quando o antigo diretor sueco Victor Sjöström, já bem idoso, encarnava um personagem que via a si próprio em um caixão. Consta que o título original, "Smultronstället", conota o "tempo e o lugar em que se colhem morangos silvestres", exemplo do que já se chamou de "espiral" dos temas bergmanianos que retornam a cada filme, como se voltassem ao mesmo ponto de um círculo - mas em planos diferentes. Essa espiral levaria, anos mais tarde, à leitura do diário da morta em "Gritos e Sussurros", com uma breve alusão a este "tempo-espaço" de felicidade fugaz que justifica nossas vidas. Um breve verão que se preserva na memória. Ou nas imagens de um grande filme.

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