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Homenagem a Silvio Tendler (1950-2025)

Por Ricardo Cota

Viver para filmar

 

 

A obra do cineasta Silvio Tendler constitui um dos pilares da história do documentário no Brasil. Nascido no Rio de Janeiro em 1950, Silvio foi um dos pioneiros do Movimento Cineclubista, chegando a ser presidente da Federação de Cineclubes do Rio de Janeiro em 1968. O Movimento contribuiu de forma decisiva para que uma jovem geração de cinéfilos tivesse acesso ao cinema clássico e contemporâneo, então sem qualquer tipo de distribuição no circuito comercial.

 

No mesmo simbólico 1968, iniciou a carreira no cinema como assistente de direção do curta “Fantasia para ator e TV”, produzido pela Mapa Filmes, de Zelito Vianna, e dirigido por Paulo Alberto Monteiro de Barros, o Artur da Távola. Ainda em 1968, Silvio estreou como diretor num documentário sobre a Revolta da Chibata, cujo original infelizmente foi queimado pelo governo militar.

 

Nos anos 70, amadureceu a convicção de documentarista a partir de duas experiências internacionais: a visita ao Chile de Salvador Allende e a dedicação aos estudos de cinema na França, onde conviveu com Chris Marker, Joris Ivens, Pierre Kast e Jean Rouch, mestres que nortearam sua obra composta por mais de 70 produções, incluindo longas, médias, curtas e séries para a TV.

 

No campo da política, filmes como “Os anos JK” e “Jango” ultrapassaram o status de documentário para se constituírem em verdadeiros catalisadores de uma discussão profunda sobre as fragilidades da democracia brasileira no século XX. A forte capacidade de comunicação alçou o diretor à condição de documentarista brasileiro de maior sucesso de público. São dele as três maiores bilheterias do gênero no país: “O mundo mágico dos Trapalhões” (1 milhão e 800 mil espectadores), “Jango” (1 milhão) e “Os anos JK” (800 mil).

 

São filmes que passam pela trajetória de ex-presidentes, de um importante general vietnamita, de poetas, filósofos e escritores de diferentes gerações, sempre a examinar as utopias, as resistências a ditaduras, o uso indiscriminado de agrotóxicos, o processo de privatizações, o aumento crescente no número de cesarianas, a religiosidade no Brasil, a fotografia como meio de expressão da realidade, a arte e a cultura no Brasil profundo. Pouco lhe escapou.

 

Foi um observador do mundo que o cercou. Jamais cedeu à ideia da morte, mesmo diante dos graves problemas de saúde que enfrentou. Filmar para ele era viver.

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