HUGO CARVANA - Homenagem ao malandro

Por Pedro Butcher

Filho dos subúrbios cariocas, Hugo Carvana nasceu em Lins de Vasconcelos, em 1937, e passou a infância entre o Catumbi, o Rio Comprido e a Tijuca. Adolescente em meados dos anos 1950, quando o cinema brasileiro vivia o ápice das chanchadas, tornou-se um grande fã das comédias musicais que atraíam multidões às salas escuras. Quando não tinha dinheiro para pagar a entrada, recorria ao velho truque de entrar pela saída, de costas, misturando-se entre os espectadores da sessão anterior.

 

Um pouco mais tarde passou a frequentar a noite carioca e ficou amigo de figuras lendárias da boemia local, como Ary Barroso, Tom Jobim, Vinicius de Moraes e Roniquito. Nos anos 1960, se envolveu profundamente com o teatro político e se tornou um dos atores mais frequentes do cinema novo.

 

Desse caldeirão cultural e afetivo, brotou o criador de Vai Trabalhar, Vagabundo (1973), Se Segura, Malandro (1978) e Bar Esperança – O Último que Fecha (1983) - filmes que de alguma forma conseguem sintetizar experiências pessoais e o espírito de uma época.

 

A vocação para ser ator surgiu ainda na infância e foi imediatamente percebida – ele era carinhosamente chamado por seus parentes de “o palhaço da família”. Aos 18 anos, se inscreveu no Teatro do Estudante, famoso curso comandado pelo mestre Paschoal Carlos Magno. Enquanto isso, buscava também algum espaço no cinema. Em 1955, fez uma figuração em Trabalhou Bem, Genival, comédia de Luiz de Barros produzida por Watson Macedo (1955), e a partir daí atuou em 22 chanchadas, até ganhar seu primeiro personagem de destaque no filme Esse Rio que Eu Amo, de Carlos Hugo Christensen (1961).

 

Paralelamente, foi se afirmando como ator de teatro. Participou de montagens de O Auto da Compadecida, de Ariano Suassuna, O Pagador de Promessas, de Dias Gomes, e Boca de Ouro, de Nelson Rodrigues, mas seu trabalho ganhou maior dimensão com o surgimento do teatro político, com participações marcantes em A Revolução na América do Sul, de Augusto Boal (1960), Se Correr o Bicho Pega, Se Ficar o Bicho Come, de Ferreira Gullar e Oduvaldo Vianna Filho (1966), e Meia-volta, Vou Ver, de Oduvaldo Vianna Filho, Paulo Pontes e Armando Costa (1967).

 

Em 1962, Carvana conheceu Ruy Guerra, que o convidou para fazer uma ponta em seu primeiro longa-metragem, Os Cafajestes. Essa participação se ampliou bastante em Os Fuzis, o segundo filme de Ruy Guerra, e deu início a uma trajetória que o transformaria em um dos atores mais presentes no cinema novo. Trabalhou com Glauber Rocha (Terra em Transe, Câncer, O Dragão da Maldade Contra o Santo Guerreiro e O Leão de Sete Cabeças), Carlos Diegues (A Grande Cidade, Os Herdeiros, Quando o Carnaval Chegar), Joaquim Pedro de Andrade (Macunaíma), Paulo Cesar Saraceni (O Desafio) e Arnaldo Jabor (Pindorama e Toda Nudez Será Castigada).

 

Entre 1974 e 1982, Carvana dirigiu e atuou em três filmes que podem ser vistos como instantâneos de uma época da cultura carioca –  todos eles sutilmente subversivos, levando-se em conta que foram realizados em plena ditadura militar. Em Vai Trabalhar Vagabundo (1974), dá corpo e alma a Dino (Secundino Meirelles), típico malandro que, ao sair da prisão, volta a armar golpes para arrumar uns trocados. Em Se Segura, Malandro (1978), vive Paulo Otávio, locutor de uma rádio clandestina em uma favela, que tem como repórter a jovem Calói Volante (Denise Bandeira). Já Bar Esperança – O Último que Fecha (1982), possivelmente sua obra-prima, desenha-se como uma grande crônica em torno da noite de despedida de um bar que vai fechar suas portas. É um clássico “filme coral”, em que vários personagens aos poucos revelam suas histórias. Carvana e Marília Pêra, por exemplo, interpretam um casal que vive às turras, enquanto Sylvia Bandeira tem uma participação consagradora como Cotinha, a mulher que se vinga das tantas noites fora passadas por seu marido fazendo um strip tease sobre a mesa.

 

Apesar da grande força de figuras como Secundino Meirelles e Paulo Otávio, o espectro de Carvana como ator foi infinitamente mais amplo – não só no cinema, no qual viveu personagens dos mais diversos tipos, mas também na televisão, com destaque para o jornalista Waldomiro Pena, do seriado Plantão de Polícia (1979), e as dezenas de personagens em telenovelas, com atenção especial para os personagens criados para ele por Gilberto Braga (Lucas, em O Dono do Mundo, Lineu, em Celebridade, e Belisário, em Paraíso Tropical).

 

Depois de Bar Esperança, Carvana dirigiu outros seis filmes: Vai Trabalhar Vagabundo 2 – A Volta (1991), O Homem Nu (1997), Apolônio Brasil – O Campeão da Alegria (2003), Casa da Mãe Joana (2008), Não se Preocupe, Nada Vai Dar Certo (2011) e Casa da Mãe Joana 2 (2013). Se nenhum deles conseguiu ter o mesmo peso da “trilogia carioca”, todos procuravam combinar a expressão artística sincera de uma cultura que ele amava e conhecia com profundidade ao desejo de se comunicar com o grande público – uma qualidade que foi se tornando cada vez mais rara, na medida em que a polarização entre o cinema “artístico” e o “comercial” se acentuou de forma radical não só no Brasil, mas no mundo.

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