Por Luiz Fernando Gallego

A força dos grupos fechados

 

Freud caracteriza a Igreja como um “grupo artificial” do tipo que “exige uma força externa para ser mantido; geralmente a pessoa não é consultada se deseja ingressar em tais grupos, e qualquer tentativa de abandono traz perseguições e punições”. A perseguição, se internalizada, pode até ser mais forte do que as ameaças externas. Neste filme, uma noviça polonesa prestes a receber o hábito de freira recebe recomendação da superiora do convento onde foi criada para ir visitar uma tia, seu único parente vivo, antes de se recolher à vida monástica. A tia lhe conta que seu nome real é “Ida”, que ela é judia como eram seus pais, mortos durante a ocupação nazista. O filme toca num tema melindroso: não só nazistas alemães mataram judeus, pessoas comuns também revelaram seu antissemitismo de modo cruel.

 

A tia de Ida é uma mulher amargurada que lutara na resistência polonesa contra o nazismo e tinha ideais de esquerda. Com a derrocada nazista, a Polônia passou ao domínio comunista da então URSS stalinista, e Wanda, “a vermelha”, se transformou em juíza, tendo condenado “inimigos do povo” à morte; às vezes por coisas tão banais como a destruição de um jardim de flores vermelhas: cor da bandeira da URSS e do comunismo. 

 

Ela perdera um filho no mesmo assassinato dos pais de Ida, e um luto tardio associado à sua descrença com os rumos do comunismo “oficial” a levarão ao suicídio (talvez também para induzir Ida, sua herdeira, a não tomar o hábito). A noviça posterga sua ordenação, volta à vida laica e passa por um processo de identificação com a morta: usa suas vestes, escuta seus discos, e até tem um caso com um músico que quer viver com ela. Mas, surpreendendo o espectador, retorna ao convento – o que frustrou algumas pessoas, como se a opção da personagem fosse a “ideologia” do próprio diretor Pawel Pawlikowski. No entanto, se nos colocarmos de fato no lugar da personagem em vez de projetarmos nossas idealizações e preferências pessoais, qual seria, na década de 1960, a melhor estratégia de sobrevivência?

 

Ida se descobre judia e apreende o que pode ser o antissemitismo, e também é uma noviça católica que capta a descrença da tia no regime comunista fechado ao qual Wanda dedicara sua juventude, e sob o qual ela vive. Lembrem que a URSS teve que ser mais tolerante com o catolicismo arraigado nos poloneses do que em outros países que dominou: a reclusão no convento parece à jovem menos ameaçadora do que as promessas de seu amante – “E depois?”, pergunta ela a cada proposta (idílica) do rapaz.

 

Existe também uma “identificação com o agressor”, já que a Igreja, por intermédio das freiras que a criaram, também roubou sua verdadeira identidade judaica, ainda que inicialmente isso possa ter protegido a bebê judia recolhida. Lendo as especulações de Freud sobre as igrejas, podemos compreender melhor a personagem, ou seja, “compreender coisas inerentemente estranhas ao nosso próprio Eu” - o conceito psicanalítico de empatia.

Ida – Dinamarca/ Polônia, 2014 - Direção: Pawel Pawlikowski – Roteiro: Pawel Pawlikowski, Rebecca Lenkiewicz – Produção: Eric Abraham, Ewa Puszczynska, Piotr Dzieciol - Fotografia: Lukasz Zal, Ryszard Lenczewski – Montagem: Jaroslaw Kaminski – Elenco: Adam Szyszkowski, Agata Kulesza, Agata Trzebuchowska, Dorota Kuduk, Halina Skoczynska, Jerzy Trela – Duração: 82 minutos.

© 1982 - 2021 Associação de Críticos de Cinema do Rio de Janeiro