Inglesa e o Duque, A (L´Anglaise et le duc), de Eric Rohmer (França)

Por Luciano Trigo

Em A Inglesa e o Duque (LAnglaise et le duc, 2001), seu último filme, o veterano Eric Rohmer deixa de lado o comentário sobre as relações humanas contemporâneas presente em seus ciclos (como o das quatro estações) para mergulhar num momento crítico da História, a Revolução Francesa. É uma obra avulsa, atípica em sua carreira - como foram A Marquesa de O e Perceval, o Gaulês, ambos dos anos 70 - e tem em comum com estes dois filmes o desafio da adaptação de uma obra literária - no caso, as memórias da aristocrata inglesa Grace Elliot, lançadas em 1863.

Amante do Duque de Orleans, primo do Rei Luís XVI, Grace foi testemunha da fase mais sangrenta da Revolução, quando os Jacobinos liderados por Robespierre instituíram o terror como política de Estado, condenando milhares à guilhotina. A idéia de Rohmer era contrapor a calma aristocrática da casa que servia de refúgio a Grace aos turbulentos acontecimentos das ruas de Paris, tomadas pela convulsão social e política. Aos olhos de uma nobre inglesa, cuja própria vida corre perigo, o lema "liberdade, igualdade e fraternidade" serve de pretexto a um massacre sem precedentes, guiado por fanáticos e demagogos. Isso bastou para gerar uma polêmica na França, onde A Inglesa e o Duque foi considerado "contra-revolucionário", acusação reforçada pela fama de conservador do cineasta. 

Por si só, a forma que Rohmer encontrou de retratar a Paris histórica vale o preço do ingresso. Ele queria mostrar uma cidade grande, com praças e espaços abertos que realmente foram palco de episódios mencionados no filme, mas de uma forma fiel à arquitetura da capital. A solução encontrada foi inserir os personagens em cenários pintados, inspirados no traçado original da cidade e baseados em pesquisa documental, a partir de mapas e gravuras de época. Um recurso antigo, empregado já por Méliès, mas que a tecnologia digital, pela primeira vez empregada por Rohmer, transformou numa arte refinada. Curiosamente, o efeito artificial decorrente dessas inserções confere mais autenticidade A Inglesa e o Duque do que se fossem usadas as locações habituais dos filmes históricos na França, em cidades do interior.

Isso posto, a forma como os diálogos encadeiam os acontecimentos, revelando pouco a pouco a vida interior de cada personagem é tipicamente romehriana, um mestre na análise psicológica, capaz como ninguém de transformar o espectador seu cúmplice. Lucy Russell, com seu rosto de camafeu, faz uma interpretação delicada da protagonista, revelando-se uma atriz adequada a conduzir essa espécie de crônica da vida privada de uma classe chutada para escanteio pela Revolução. 

A Inglesa e o Duque não pretende iniciar um debate histórico, mas simplesmente mostrar como os grandes acontecimentos ganham cores inusitadas quando vistos pelos olhos de um indivíduo que os testemunha, e não por um historiador que os interpreta e unifica. Nesse sentido, é sintomático que o diretor tenha optado por adaptar um livro de memórias, e não um romance histórico ou um ensaio, em sua ousada abordagem da Revolução Francesa. Em suma, trata-se de mais uma obra-prima de Eric Rohmer, que, já octogenário, continua dando lições de cinema.

© 1982 - 2021 Associação de Críticos de Cinema do Rio de Janeiro