Jogo de Cena, de Eduardo Coutinho (Brasil)

Por Daniel Schenker Wajnberg

Como detectar a diferença entre um depoimento e a interpretação de um depoimento? Em Jogo de Cena(2006), Eduardo Coutinho borra esta fronteira, a ponto de o espectador não identificar se quem está na tela é a própria pessoa que viveu as experiências que narra ou um ator (a não ser, claro, nos casos de profissionais conhecidos). 

Não é a primeira vez que um cineasta aborda a distinção entre representação e não-representação: David Lynch contrastou, em "Cidade dos Sonhos", duas seqüências - na primeira, a protagonista, Betty Elms (Naomi Watts), bombeia emoção ao ensaiar um texto para um teste; e na segunda, a do teste, diz o texto munida daquilo que se costuma chamar de verdade interpretativa. 

As conversas entre Eduardo Coutinho e as atrizes, registradas em Jogo de Cena, parecem revelar que o esforço em escapar das convenções da representação está relacionado ao encontro - pelo menos, em certa medida - de um registro contido. Andréa Beltrão, por exemplo, afirma ter buscado a serenidade de sua "personagem". Alcançar um estado verdadeiro é uma ambição constante e Marília Pêra destaca a artificialidade da exibição emocional. "Quando o choro é verdadeiro, a pessoa tenta esconder e o ator hoje procura mostrar", assinala.

Mary Sheila abre Jogo de Cena prestando, aparentemente, um depoimento pessoal sobre seu ingresso no grupo Nós do Morro, mas, minutos depois, o espectador percebe a conexão entre sua fala e a de Jackie Brown (a montagem de Jordana Berg produz articulações diversas entre os depoimentos das mulheres que, em junho de 2006, contaram ao diretor as suas histórias de vida e as interpretações das atrizes, gravadas, no mesmo Teatro Glauce Rocha, três meses depois).

Ao escalar alguns rostos famosos, Eduardo Coutinho mostra como os atores, ao se remeterem a associações pessoais, se apropriam de textos alheios. Curiosamente, o cineasta escolheu atrizes acostumadas a comentar as personagens que fazem (em especial, Marília Pêra) e não a "desaparecer" por trás delas. 

Mas Coutinho também não é um diretor que oculta o seu processo de trabalho. Ao contrário, revela determinadas etapas, como o pagamento dos entrevistados em "Santo Forte" e a decisão em assumir a presença da equipe de filmagem em Jogo de Cena, assim como as já citadas conversas com as atrizes sobre as dificuldades que enfrentaram. O risco da empreitada é resumido por Fernanda Torres: "quando você lida com uma personagem real, a própria realidade esfrega na sua cara onde você poderia ter chegado e não chegou". 

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