Má Educação (La Mala Educación), de Pedro Almodóvar (Espanha)

Por Myrna Silveira Brandão

Má Educação (La Mala Educación, 2004), de Pedro Almodóvar, é um filme forte e trata de um assunto polêmico: o abuso sexual de crianças numa escola religiosa. No entanto, além de uma denúncia de um tipo de assédio muito mais comum do que se imagina, traz à tona suas terríveis conseqüências e, vistas pelo universo transgressor do cultuado diretor espanhol, vai fundo nos mais íntimos recônditos da alma humana.

O filme é narrado em três períodos de tempo. Nos anos 60, segue dois garotos - Ignácio (Gael Garcia Bernal) e Enrique (Fele Martinez) - que descobrem o amor um pelo outro num internato religioso. Ao serem flagrados, Enrique é imediatamente expulso pelo padre Manolo (Daniel Giménez Cacho) que não quer dividir o amor de Ignácio com ele. Alguns anos depois, já nos anos 70, Ignácio ganha a vida como um travesti viciado em heroína. Passada uma década, nos anos 80, os três voltam a se encontrar. O reitor largou a batina, Enrique virou um jovem diretor de sucesso e Ignácio - que agora deseja ser ator - procura Enrique e o presenteia com um manuscrito que ele escreveu, inspirado nas experiências que os dois tiveram no colégio interno.

Almodóvar descarta a noção de que o filme seja autobiográfico. Embora tenha vivido os períodos mostrados no filme - ele foi aluno de uma dessas instituições de ensino nos anos 60 e viveu na Madri dos anos 80 - o diretor considera que o filme não tem histórias pessoais. Segundo ele, o roteiro tem a ver indiretamente, isto sim, com coisas que ele presenciou ou lhe foram relatadas, sem necessariamente contar passagens de sua vida. Estão lá, no entanto, todas as marcas do seu cinema: cores fortes, desejos, ambigüidade sexual, trama cheia de reviravoltas, personagens muitas vezes bizarros e uma ótima trilha sonora conduzida por Alberto Iglezias e composta de clássicos como "Moon River", "Torna a Sorrento" e "Quizás, Quizás, Quizás".

As referências também estão presentes - cartazes do ícone "Pacto de Sangue" (de Hitchcock), uma abertura que lembra as do grande Saul Bass e muitos elementos dos inesquecíveis filmes noir das décadas de 40 e 50. Admirador do gênero, Almodóvar já havia enveredado pela estética noir em outros de seus filmes, caso, por exemplo, de "Carne Trêmula". Mas neste ele mergulha de uma forma mais profunda, com visível influência de clássicos de sua predileção como "Laura" (Otto Preminger), "O Destino Bate à Sua Porta" (Tay Garnett) e "Amar foi Minha Ruína" (John M. Stahl).

Embora não deixe de conter forte crítica à Igreja e à sua postura de varrer para baixo do tapete a pedofilia de alguns dos seus membros, o cerne do filme não é essencialmente anti clerical. O assunto, algumas vezes latente ou de forma explícita em sua obra, tem muito a ver, sobretudo com a já manifestada fascinação do diretor pela liturgia católica, as cerimônias, dos santos e os rituais. Má Educação é, acima de tudo, mais uma incursão de Almodóvar nos desvãos obscuros da alma humana, em que os personagens acabam se envolvendo em opções difíceis, perigosas e altamente transgressoras.

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