Os melhores filmes de 2014

Por Mario Abbade

Banquete cinematográfico

 

Depois de anos promovendo a mostra durante o carnaval, para aqueles que não são chegados à festa de Momo, o evento Melhores Filmes do Ano acontece agora logo no início de 2015. É um pedido do público que é amante do cinema, mas também não resiste ao som de uma cuíca. Ao mesmo tempo, é uma forma de dar um último presente que ficou faltando no Natal, aquele que não se encontra debaixo da árvore, mas na sala escura, onde acontecem os sonhos – ou até os pesadelos – de cada cinéfilo. E a mudança de data parece ter sido inspiradora, já que a Associação de Críticos de Cinema do Rio de Janeiro não elegeu os típicos 10 filmes, mas inovou com 11 produções, para representar de maneira plural o que fez a cabeça dos críticos. Mas é bom lembrar que, para ser votável, o longa tem que ter sido exibido em circuito em 2014.

 

Como sempre, os filmes escolhidos serão apresentados em dupla. Na hora de organizar essa programação, algumas vezes são as semelhanças que os ligam, em outras, suas diferenças. Em tempos de domínio da internet e das redes sociais, Ela, do diretor Spike Jonze, foi escolhido o melhor filme de 2014. Junto dele, vai ser exibido Sob a Pele, de Jonathan Glazer. Ambas as produções têm a presença da atriz Scarlett Johanson. Se, no filme de Jonze, ela é uma voz sedutora sem corpo, no filme de Glazer, Johanson é uma alienígena que, apesar de aparecer nua, é desprovida de qualquer tipo de sedução. Ter Johanson em dois filmes não é uma coincidência, já que a atriz teve destaque no ano em mais dois longas: Lucy e Capitão América: O Soldado Invernal, produção que por dois votos não entrou na lista final, reforçando a tese de que os filmes de super-heróis dos quadrinhos cada vez mais vêm combinando entrenimento com reflexão.

 

Outra dupla é O Lobo de Wall Street, do veterano Martin Scorsese, e Relatos Selvagens, do argentino Damián Szifrón. Os dois filmes, marcados por enorme dose de humor negro e violência, retratam peculariedades de diferentes realidades. No campo da fantasia, tem a assinatura visual de Wes Anderson, em O Grande Hotel Budapeste, com o sempre relevante Woody Allen em Magia ao Luar, confirmando a máxima de que um Allen menor consegue ser mais interessante do que muita coisa que chega ao circuito. Os dramas familiares ganham destaque no japonês Pais e Filhos e no americano Nebraska. Já o cinema de gênero surge na trama policial de O Lobo Atrás da Porta, de Fernando Coimbra, eleita a melhor produção nacional do ano, que será exibida com o filme de estreia em musicais do eterno Homem sem Nome Clint Eastwood: Jersey Boys: Em busca da Música, em que Clint vai na contramão do óbvio e subverte o estilo de um espetáculo premiadíssimo na Broadway.

 

Para encerrar a lista, tem Boyhood: Da Infância a Juventude, do diretor Richard Linklater, que exercita seu estilo de abordar o tempo, mostrando que não existe aproveitar um momento, porque cada pedaço da vida é um momento para ser aproveitado. Junto com Linklater, a primeira homenagem da mostra: a poesia do cinema do mestre francês Alain Resnais, que quase emplacou Amar, Beber e Cantar na lista do ano. Em sua vasta e respeitável filmografia, são tantas opções que é impossível escolher uma só que seja emblemática, mas, para fazer parceria com Boyhood, será exibido O Ano Passado em Marienbad, pois os dois longas tratam do tempo de maneira bem simbólica. Ainda entre os homenageados, estão Eduardo Coutinho, que mudou a maneira de fazer documentários e é representado por Edifício Master, e o eterno malandro carioca, torcedor ilustre do Fluminense Football Club e diretor/ator Hugo Carvana, com Vai Trabalhar, Vagabundo!.

 

Entre os filmes que chegaram ao segundo turno e, às vezes, por um voto não entraram na lista, além do Capitão América e de Amar, Beber e Cantar, de Alain Resnais, estão o romeno Instinto Materno, de Calin Pter Netzer; Inside Llewyn Davis: A Balada de um Homem Comum, dos Irmãos Ethan e Joel Coen; o brasileiro Hoje Eu Quero Voltar Sozinho, de Daniel Ribeiro; o paraguaio 7 Caixas, de Juan Carlos Maneglia e Tana Schembori; o chileno Gloria, de Sebastián Lelio; o português O Gebo e a Sombra, do diretor Manoel de Oliveira, de 106 anos; e Garota Exemplar, de David Fincher.

 

Os integrantes da ACCRJ também homenagearam a iniciativa da programação do Cine Joia, que vem dando espaço para filmes que nunca tiveram chance de estrear no circuito, além de uma série de outras ações importantes para o cinema não só carioca, mas nacional. Nenhuma outra sala de cinema do Rio de Janeiro mereceu destaque em 2014: pelo contrário, foram inúmeros problemas de projeções inadequadas, como janela errada, projeção escura, entre outras dificuldades para o espectador. Por fim, a ACCRJ apoia o tombamento do Odeon como cinema e espera que providências sejam tomadas para que o espaço seja reaberto o mais rápido possível, pois esta é uma das salas de exibição mais tradicionais do Rio de Janeiro.

 

Depois da virada de ano, nada melhor do que começar 2015 com mais festa – cinematográfica. E o banquete deste ano é marcado pela diversidade. Tudo para um início de ano com o pé-direito, à base de filmes contrastantes, mas todos com debates reunindo críticos da ACCRJ e convidados de diferentes áreas de atuação. Nos vemos lá.

Mario Abbade

Organizador da Mostra e Secretário-Geral da Associação de Críticos de Cinema do Rio de Janeiro (ACCRJ)

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