Melhores de 2013

“Recordar é viver. Eu ontem sonhei com você, Recordar é viver, Eu ontem sonhei com você.
Eu sonhei, Meu grande amor, Que você foi embora, E nunca mais voltou, meu amor.”

 

Além de ser o hino adotado pela torcida do Fluminense, com os versos mudados para homenagear o jogador Assis, carrasco do Flamengo nos campeonatos cariocas de 1983 e 1984, a marchinha de carnaval “Recordar é viver” tem uma relação simbólica com a mostra Melhores Filmes do Ano. Na composição de Aldacir Marins e Macedo, o tema é um sonho com um amor que foi embora. Parece até sob medida para falar do que está acontecendo com o mundo do cinema. Em 2013, as distribuidoras anunciaram o fim da película. Os filmes, a partir de 2014, serão distribuídos no formato digital, transformando a película em um raro tesouro para os cinéfilos mais nostálgicos.

 

Essa transição começou cerca de 10 anos atrás, por causa dos altos custos das cópias: US$ 2 mil para produzir e distribuir uma película, contra os US$ 100 do novo formato. Depois de as câmeras digitais causarem um impacto na realização de filmes, incorporado em Império dos Sonhos (2006) por David Lynch, que declarou que nunca mais faria nada em película, a técnica chega de maneira definitiva às salas de exibição: a Paramount anunciou que seu último filme distribuído em película será Tudo por um Furo, que estreia em fevereiro no circuito.

 

Todo esse fuzuê só valoriza ainda mais esta edição da mostra Melhores Filmes do Ano, em que todos os longas serão exibidos em película. A mostra sempre teve como objetivo apresentar os filmes eleitos de forma plural pela crítica para representar os destaques do ano, mas sempre exibindo as produções no formato sonhado e concebido pelo realizador. Talvez seja esta a última chance de assistir a filmes como A Caça, de Thomas Vinterberg, eleito o melhor do ano, que será exibido junto com Amor, de Michael Haneke, por terem em comum temas espinhosos, nos limites do comportamento humano: a pedofilia e uma espécie de eutanásia, respectivamente. Outro detalhe que envolve ambas as produções é o Oscar de melhor filme estrangeiro: Haneke venceu a categoria no ano passado e Vinterberg está na disputa como um dos favoritos deste ano.

 

O teatro liga outros dois filmes: Blue Jasmine, de Woody Allen, e César Deve Morrer, dos irmãos Paolo e Vittorio Taviani. O filme de Allen é uma releitura com vida própria do clássico Um Bonde Chamado Desejo, do dramaturgo Tennessee Williams, especialmente na relação entre os personagens Jasmine, Ginger e Augie.  Mas o diretor americano também ilustra outros temas, tendo como pano de fundo a recessão econômica dos Estados Unidos. Já o longa dos irmãos Taviani traz o registro da montagem de uma das peças emblemáticas de William Shakespeare, encenada por presidiários que cumprem sentenças por crimes relacionados à Máfia na penitenciária de segurança máxima de Rebibbia, em Roma. Os Taviani traçam um fascinante paralelo entre os personagens shakespearianos e os detentos a partir de experiências de vida permeadas por traição, conspiração, culpa e amizade.

 

Outro par de filmes é formado por Django Livre, de Quentin Tarantino, e No, de Pablo Larraín. O filme de Tarantino é um western abolicionista que expõe as tintas racistas da população sulista americana na época da escravidão. Esse tipo de opressão dialoga com aquela imposta pelo ditador Augusto Pinochet sobre o povo chileno, quando o general governou o Chile com mão de ferro e truculência. O filme de Larraín é a terceira parte de uma trilogia iniciada com Tony Manero e que teve prosseguimento em Post Mortem, com o objetivo de expurgar os esqueletos de um período de trevas da sociedade chilena.

 

Mas o filme de Tarantino também poderia muito bem estar ao lado de Killer Joe – Matador de Aluguel, responsável por uma redescoberta dos talentos do cineasta William Friedkin. Apesar de esteticamente diferente dos filmes de Tarantino, Killer Joe é um comédia de humor negro extremamente violenta e com interpretações marcantes, em meio à população sulista americana. O longa é pontuado por temas como dificuldades econômicas, crise na educação e amoralidade em parte do tal sonho americano. A obra é uma adaptação de uma peça de Tracy Letts, que sabe como ninguém retratar os piores aspectos do comportamento humano. Isso faz com Killer Joe também pudesse ser exibido junto com Blue Jasmine ou César Deve Morrer, mas o escolhido foi Rush, de Ron Howard, que faz um profundo estudo da rivalidade, tendo como cenário o campeonato de Fórmula 1 de 1976. Os dois filmes serão apresentados em dupla por guardarem em comum o fato de terem sido produzidos fora das engrenagens dos grandes orçamentos de Hollywood – atores e equipe técnica reduziram seus salários para que os longas fossem feitos. Além da forma de produção, ambos os filmes foram premiados pelos críticos e pela imprensa especializada, mas permaneceram renegados pelas premiações tradicionais e tiveram retorno modesto de bilheteria. O que faltou para motivar o público a conferir esses filmes na sala escura, apesar de os dois serem de diretores ganhadores de Oscar e que já assinaram vários campeões de bilheteria?

 

Finalizam as escolhas da ACCRJ dois filmes brasileiros, ambos produzidos em Pernambuco: O Som ao Redor, de Kleber Mendonça Filho, e Tatuagem, de Hilton Lacerda. Os dois cineastas vão receber o troféu ACCRJ. Seria uma coincidência? Não, atualmente o cinema mais interessante feito no país vem de Pernambuco. Basta lembrar Febre do Rato, de Claudio Assis, que estava na lista da ACCRJ do ano passado. Com algumas exceções, os cineastas nordestinos estão no momento fazendo um cinema repleto de reflexão sobre o Brasil, mas sem deixar de lado o entretenimento. E têm sido descobertos talentos não só na direção, mas também em outros setores da produção de filmes, com destaque para os profissionais das artes dramáticas, como Irandhir Santos, que está nos dois longas.

 

Serão ainda homenageadas as iniciativas de Adailton Medeiros, no Ponto Cine, espaço inteiramente dedicado ao cinema brasileiro no bairro de Guadalupe, e Luiz Claudio Motta Lima, pelo cineclube Subúrbio em Transe. A ACCRJ também presta tributo à atriz e diretora Norma Bengell, que nos deixou em 2013.

 

A mostra de 2014 marca ainda outra novidade: a eleição da melhor sala de cinema do Rio de Janeiro. Essa premiação tem como objetivo prestar um serviço ao espectador e também ao exibidor. Toda a magia de um filme, que é coisa séria para a ACCRJ, pode se perder se não houver uma exibição adequada. Os critérios para o prêmio foram técnicos: projeção, qualidade do som, dimensão da tela, temperatura e conforto. A melhor sala de cinema do Rio em 2013 foi a Sala 6 do Espaço Itaú, que receberá um selo de qualidade da ACCRJ.

 

Premiar uma sala é, afinal, uma das formas de reafirmar a frase cunhada pelo escritor e cineasta francês Jean Cocteau: “O cinema é o sonho que todos sonhamos juntos”. Como nos versos de Aldacir Marins e Macedo, a película pode estar indo embora, mas, independentemente do formato, a magia do cinema é eterna enquanto durar o sonho.

 

Mario Abbade, organizador da Mostra e Presidente da Associação de Críticos de Cinema do Rio de Janeiro (ACCRJ).

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