Nebraska, de Alexander Payne (EUA)

Por Myrna Silveira Brandão

Questões de pai e filho

 

Embora tenha feito mais de 80 filmes, entre eles o clássico Amargo Regresso, Bruce Dern foi sempre coadjuvante e andava meio esquecido.

 

Agora, aos 79 anos, é o protagonista de Nebraska, que lhe deu a Palma de melhor ator em Cannes e a indicação ao Oscar da categoria em 2014.

 

Dirigido por Alexander Payne, Nebraska é um excelente filme. O argumento original, da autoria de Bob Nelson, é apaixonante, imprevisível e traz personagens simples, mas profundos.

 

Locado em pequenas cidades de quatro estados americanos e rodado em preto e branco, o filme é uma crônica poética das sequelas da crise econômica de 2008 nos Estados Unidos.  O próprio Payne o define como um relato da Nova Grande Depressão.

 

Dern vive Woody Grant, um septuagenário que pensa ter ganhado um milhão de dólares após receber carta de uma revista dizendo que ele foi premiado e a retirada deveria acontecer em Lincoln, Nebraska.  David (Will Forte), seu filho, decide acompanhá-lo na jornada, mesmo sabendo que tudo não passa de um esquema para a revista conseguir mais assinantes.

 

A trama narra essa viagem, bem como os encontros com parentes e amigos assombrados pelos fantasmas da recessão e do desemprego.

 

No meio do caminho para o local em que haverá a coleta do suposto prêmio, pai e filho precisam parar na casa da família, onde as histórias do passado se juntam às angústias do presente na fórmula drama/comédia que Payne sabe equilibrar como poucos.

 

Mais do que o deslocamento físico, a jornada trata da construção e do resgate de uma relação. Aos poucos os espectadores vão percebendo os ressentimentos existentes entre David e seu pai, bem como as mágoas guardadas por seu irmão Ross (Bob Odenkirk) e pela mãe Kate (June Squibb).

 

Com um humor melancólico, o diretor aborda não apenas a relação familiar, mas também como a crise financeira afetou o interior dos Estados Unidos e os próprios ideais do sonho americano.

 

Payne explica que o filme tem uma ligação forte com a realidade. “O autor do roteiro realmente viveu o que acontece na trama, então ele está descrevendo sua experiência pessoal”, explica o diretor, revelando que fazer um filme com Dern era um projeto antigo.

 

“Dirigi a filha dele (Laura Dern), no começo da minha carreira, em Ruth em Questão (1996), e, desde então, pensava em trabalhar com Bruce, que fez um excelente trabalho”, elogia.

 

De fato, o ator está fantástico, interpretando de maneira marcante um homem sofrido, amargo e sem rumo.  Seus olhares, gestos controlados e silêncios constroem um personagem cativante e extremamente verossímil.

 

Payne, por sua vez, aposta no preto e branco para retratar o olhar melancólico do protagonista e a tentativa de um filho para reencontrar a dignidade do pai.

 

O diretor, por sinal, tem se mostrado um perito em contar histórias de pessoas de meia-idade deslocadas e incompletas, que partem em algum tipo de jornada externa que reflita a interna que já vivem, como mostrou em As Confissões de Schmidt (2002), Sideways (2004) e Os Descendentes (2011).

Nebraska – EUA, 2013 - Direção: Alexander Payne – Roteiro: Bob Nelson – Produção: Albert Berger, Ron Yerxa - Fotografia: Phedon Papamichael – Montagem: Kevin Tent – Elenco: Bruce Dern, Will Forte, June Squibb – Duração: 115 minutos.

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