Por Carlos Brito

O animal noturno de Los Angeles

 

Existe um animal faminto nas ruas de Los Angeles. Ele se esconde nas sombras, à espera de sangue fresco – elemento fundamental de sua dieta. Possuidor de hábitos alimentares noturnos, a frequência de sua ação é constante. Acidentados, assassinados, baleados, incinerados e desesperançados – todos são carne para seu apetite. Uma voracidade convertida em imagens que serão exibidas nas primeiras edições dos telejornais da manhã, quando essa fome é saciada apenas por algumas horas, até a chegada da próxima noite.

 

A descrição acima poderia levar a uma associação com os coiotes que, altas horas da madrugada, costumam atravessar a área central da Cidade dos Anjos. Quando aplicada a Lou Bloom (Jake Gyllenhaal), personagem central de “O abutre”, ela passa a fazer ainda mais sentido. O integrante da família dos Canidae é um predador de hábitos noturnos. Bloom, também.

 

A estreia na direção do roteirista Dan Gilroy é uma poderosa narrativa sobre ambição desmedida, empreendedorismo amoral associado a traços de psicopatia, além de uma crítica aguda à ausência de limites verificada em atrações televisivas sensacionalistas.

 

Bloom é habitado por extremos: homem de perspectivas rasteiras e ambição elevada. Movido pela necessidade de ser bem-sucedido, recita discursos empresariais e sobrevive do furto de materiais, o que lhe rende pouco retorno financeiro e serve como indicativo de caráter. Sua história muda ao testemunhar o trabalho de uma equipe de cinegrafistas freelancers que, durante noites e madrugadas, registram acontecimentos sangrentos para vendê-los aos jornais das emissoras locais. Os chamados “Stingers” ou “Nightcrawlers”, título original da produção. É nesse ponto que o protagonista percebe um possível caminho para sua vida. E, para trilhá-lo, não haverá limites.

 

Uma insanidade empreendedora salta dos olhos do personagem de Gyllenhaal. Sua loucura transparece não apenas por meio de gestos, decisões e frases, mas também pelo seu próprio aspecto físico – magro, quase esquálido, condição que induz a uma aparente fragilidade. No entanto, quando olhamos com um pouco mais de atenção, fica evidente que uma imensa dose de violência pode irromper dali. Disposição sem freios que encontra eco e incentivo na diretora de jornalismo vivida por Rene Russo e, em certa medida, alguma contraposição no auxiliar Rick, papel de Riz Ahmed.

 

Apresentado numa Los Angeles fantasmagórica e sombria, com evidente clima noir concebido pelo diretor de fotografia Robert Elswit – antigo colaborador de Paul Thomas Anderson -, “O abutre” disserta sobre uma questão ética central para qualquer um que registra fatos de forma jornalística: a quebra da barreira que impede o jornalista de interferir no fato reportado. Para Bloom, isso não passa de abstração – um conceito moral desimportante a ser desprezado em favor de suas ambições.

 

O coiote – ou o abutre – continuará lá, à noite, observando, esperando. E, para ele, não haverá reservas morais. Nunca houve.

Nightcrawler – EUA, 2014 - Direção: Dan Gilroy – Roteiro: Dan Gilroy – Produção: David Lancaster, Jake Gyllenhaal, Jennifer Fox, Michel Litvak, Tony Gilroy - Fotografia: Robert Elswit – Montagem: John Gilroy – Elenco: Jake Gyllenhaal, Alex Ortiz, Bill Paxton, Rene Russo, Kevin Dunigan, Leah Fredkin, Marco Rodríguez, Michael Papajohn – Duração: 117 minutos.

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