Homem que Copiava, O de Jorge Furtado (Brasil)

Por Marcelo Janot 

O título O Homem Que Copiava (2002) revela bem mais que seu stricto senso. Não se refere apenas ao operador de foto copiadora que protagoniza o filme, mas também a quem está por trás dele: o diretor Jorge Furtado é o homem que copia, e o faz de forma assumida e proposital, sem nenhum receio de ser chamado de plagiador. Ele copia, ou melhor, reprocessa inúmeras influências artísticas, literárias e cinematográficas, que vão de Shakespeare aos seus próprios filmes anteriores, e o resultado dessa mistura é um produto bastante original, que não se filia a um gênero cinematográfico específico, mas dialoga com o cinema de temática social que está na ordem do dia da produção brasileira. 

No depoimento que deu ao site oficial do filme, Furtado declarou que quando escreveu o roteiro ainda não tinha assistido a Não Amarás, o filme de Krzysztof Kieslowski que tem diversas semelhanças com O Homem Que Copiava. "A invenção de um enredo inteiramente novo é impossível, tudo está referenciado em outras coisas", disse. O segredo está na forma de juntar essas referências tão diversas, na colagem de elementos tão díspares para formar um produto sólido e coeso, algo que Furtado fez com maestria no antológico curta-metragem Ilha das Flores. E que repete aqui.

O excesso de citações e de formatos cinematográficos não desvia o foco das três maiores qualidades presentes em toda a obra de Furtado: a engenhosidade do roteiro, a humanização dos personagens e o discussão ética. Como já mostrara em seu longa anterior, o ótimo Houve Uma Vez Dois Verões, no cinema de Furtado não há lugar para estereótipos: os personagens André (Lázaro Ramos), Sílvia (Leandra Leal), Marinês (Luana Piovani) e Cardoso (Pedro Cardoso) são muito parecidos com gente como a gente, e a estrutura do roteiro, que os coloca como anti-heróis, favorece essa rica dimensionalidade. Como Furtado também faz questão de não julgá-los, cabe ao espectador fazer sua própria leitura ética de cada um deles. 

No cinema de Furtado sobra espaço para o incomum, e é isso que torna seus trabalhos tão especiais. Pode-se iniciar o filme com cerca de meia hora de narração em off para fazer, propositadamente, a platéia estranhar, mesmo sob o risco do fastio. Uma ousadia calculada, pois quando o filme encontra o caminho de uma narrativa mais convencional (que pouco tempo depois será subvertida outra vez) o público já sabe que não está diante de um filme convencional, o que pode lhe proporcionar o prazer de saborear o diferente - mesmo que o diferente às vezes sejam pequenos probleminhas, como a falta de naturalidade de Lázaro Ramos e Leandra Leal na hora de falar ogauchês.

Dentro dessa lógica particular, e a partir de um experimentalismo que em nenhum momento abre mão da comunicabilidade, O Homem Que Copiavavai, em tom fabular, tocando em temas fundamentais para a compreensão do que é o jovem brasileiro de classe média-baixa nos dias atuais: a falta de perspectiva profissional, a desestrutura familiar, a ditadura do consumo e a revisão dos conceitos éticos. A influência do meio no destino dos personagens é determinante, mas como estamos falando de um filme de Jorge Furtado, a coisa nunca será tão simples assim. O destino sempre é tratado como elemento-chave em seus filmes, e aqui livre arbítrio e sincretismo religioso batem de frente para embaralhar ainda mais nossas conclusões.

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