O Lobo de Wall Street (The Wolf of Wall Street), de Martin Scorcese (EUA)

Por Rodrigo Fonseca

O lobo uiva

 

Maior sucesso de Martin Scorsese em arrecadação global, com faturamento de US$ 392 milhões, O Lobo de Wall Street preenche uma cédula que o cineasta – um dos maiores da história – jamais havia preenchido com propriedade: a do sexo. Os votos do realizador nesse quesito sempre oscilaram entre o nulo e a discrição extrema, como um fruto da névoa católica opressora em sua criação. Cabo do Medo (1991) havia sido seu flerte mais direto com o erotismo. Mas, 22 anos depois, a história (de tintas reais) de Jordan Belfort, investidor da bolsa que chegou a milionário entre fraudes e macetes, serviu para excitar Scorsese. Situações atípicas em sua obra e na de seus contemporâneos da geração Easy Rider pontuam a transposição às telas da jornada corrupta de Belfort, a começar por uma vela usada para fazer um fio-terra no personagem encarnado com majestade por Leonardo DiCaprio.

 

Cenas de muito topless, aeróbicas vaginais, transas coletivas – antes incompatíveis com a visão de mundo carola de Scorsese – entram num desfile hormonal sem pudor. É o Scorsese mais libertário, mais bem resolvido com tabus, mais debochado (e sem culpa) quanto ao uso de entorpecentes. É, enfim, um trabalho de maturidade de quem já amadureceu faz décadas – desde, no mínimo, "Depois de horas" (1985). Por isso, é tão estimulante ver um senhor septuagenário agir como um adolescente encantado com a força do desejo. 

 

É em meio a turbilhão sensual (e sensorial) que Scorsese promove o que se chama em dramaturgia de "narrativa de dois campos", na qual o foco não é a evolução e a correção do caráter do personagem, mas o quanto a sua "jornada (anti-)heróica" pode render de discurso sobre a sociedade, ou, no caso, sobre o microcosmo dos EUA do neoliberalismo. E Belfort, na releitura abusada de DiCaprio, é a síntese do cógito neoliberal. Scorsese abre sua experiência detonando o limite que separa filme e realidade: Belfort olha para a câmera e conversa conosco, deixando visível um distanciamento da mentira que criou ao redor para subsistir. Ali, Scorsese deixa de ser o intermediário de seu conto moral e faz plateia e protagonista conversarem sem interlocução de ninguém.

 

Com os olhos no espectador, Berlfort deixa claro sua cupidez, sua voracidade: de origem pobre e família fracassada, quer engolir o mundo inteiro. Autor que é, Scorsese sempre volta ao mesmo tema: há invariavelmente um cordeiro a ser imolado em nome de um deus menor do que o Deus católico, no caso, o mercado, o capital. Ao longo de 180 feéricos minutos, esta produção de US$ 100 milhões documenta ficcionalmente a imolação de Belfort e seu (auto)sacrifício em prol das exigências capitalistas. E, conforme ele se afasta da sanidade, embebedado nas benesses do dinheiro, se afasta do sonho de prosperidade afetiva que o trabalho poderia proporcionar. E, já que a mais-valia tende a acabar, Belfort vai perdendo sua alma num calvário antimarxista, ávido pelo sangue de todos. Esta homilia é contada com o charme da fotografia do mexicano Rodrigo Prieto e o reforço de coadjuvantes como Matthew McConaughey, pleno na pele do guru onanista de Belfort.

The Wolf of Wall Street – EUA, 2013 - Direção: Martin Scorsese – Roteiro: Terence Winter – Produção: Riza Aziz, Leonard DiCaprio, Joey McFarland, Martin Scorsese, Emma Tillinger - Fotografia: Rodrigo Prieto – Montagem: Thelma Schoonmaker – Elenco: Leonardo DiCaprio, P.J. Byrne, Jon Favreau, Matthew McConaughey, Spike Jonze, Rob Reiner – Duração: 165 minutos.

© 1982 - 2021 Associação de Críticos de Cinema do Rio de Janeiro