Novo Mundo, O (The New World), de Terrence Malick (EUA)

Por Marcelo Janot

O recluso e excêntrico Terrence Malick talvez seja o diretor hollywoodiano menos hollywoodiano da história. Nascido no Texas, formado em Filosofia em Harvard, cursou doutorado em Oxford e deu aulas no M.I.T.. Após ganhar prestígio com seus dois primeiros filmes, se mudou para Paris e desapareceu por 20 anos, até voltar aos EUA para realizar mais duas obras-primas.

Em 34 anos de carreira, Malick fez apenas quatro filmes, que juntos constituem um sólido painel da sociedade americana, cada um deles representando um período específico. "Terra de Ninguém" (1973) se passa nos anos 50, "Dias de Paraíso" (1978) no início do século passado, "Além da Linha Vermelha" (1998) durante a Segunda Guerra Mundial e O Novo Mundo (The New World, 2005) volta ao período da colonização, no século 17. São filmes que expõem aspectos de uma nação que trocou a pureza por valores corrompidos, que foram se degradando ao longo dos tempos.

A história (verídica) da indiazinha que encantou o capitão John Smith e os demais colonizadores ingleses que desembarcaram na Virginia em 1607 foi romanceada ao longo dos anos, culminando com o filme de animação dos Estúdios Disney, que enaltecia a atitude de Pocahontas ao se sacrificar em prol do homem branco. Para Malick, a chegada dos ingleses serviu, isso sim, para quebrar a harmonia que existia entre o Novo Mundo e seus habitantes, dando origem a um histórico de guerra, desrespeito, opressão e arbítrio, norteando o desenvolvimento futuro da sociedade americana.

O discurso de Malick é moldado por sua formação filosófica, e O Novo Mundo tem muito do pensamento de Hegel sobre temporalidade e historicidade. A relação entre o indivíduo e a natureza é a essência primordial do filme. Quando Smith (Colin Farrell) se depara com o frescor do mundo de Pocahontas (QOriana Kilcher) e reflete sobre a condição humana, encontra o caminho de uma autoconsciência que será negada em seguida, como acontecia com o soldado vivido por Jim Caviezel em "Além da Linha Vermelha".

A genialidade do diretor reside em expressar seu pensamento através de uma gramática narrativa singular, em que imagem e som se fundem dando origem a uma experiência sensorial difícil de ser descrita. O cuidado de Malick com a composição de cada plano, com a escolha de cada nota musical e com o desprendimento da montagem fazem de O Novo Mundo uma obra-prima para ser fruída como a redescoberta de um cinema que hoje parece utópico. Puro, essencial e poético. Justamente como a vida na Virgínia há 400 anos.

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