
Pecadores
Por Marcelo Janot
Muito além do vampirismo
Para entender de onde vem o medo de que a Warner Bros seja “engolida” pela Netflix, basta assistir a “Pecadores”, de Ryan Coogler, que investiu cerca de US$ 100 milhões em um filme para ser visto no cinema, onde rendeu quase quatro vezes mais. Trata-se de uma obra ousada que vai muito além do rótulo de “filme de vampiro”. E que desafia a lógica dos estúdios de arriscar alto basicamente em franquias de aventuras de super-heróis que, salvo exceções como o “Pantera Negra” (do próprio Coogler), não passam de mero entretenimento.
Os vampiros só dão as caras depois de meia hora. Até lá, somos ambientados à atmosfera de Clarksdale, no Mississipi dos anos 30, onde a trama une, de forma fascinante, os elementos fantásticos com episódios que remetem à história do local e ao contexto racial e cultural dos Estados Unidos na época.
Clarksdale, “o berço do blues”, é o local em que, reza a lenda, o guitarrista Robert Johnson vendeu a alma ao diabo numa encruzilhada. A forte presença da Ku Klux Klan e das leis segregacionistas de Jim Crow também estão bem contextualizadas a partir do retorno à cidade dos irmãos gêmeos interpretados por Michael B. Jordan, dispostos a investir numa juke joint (casa noturna de diversões para a população afro-americana).
Há uma complexidade na composição dos protagonistas que desafia rótulos. Eles prosperaram na Chicago de Al Capone com atividades ilícitas e esse status é percebido nas roupas caras e na maneira por vezes violenta como lidam com quem ousa desafiá-los. Por outro lado, despertam uma sensação de pertencimento em uma comunidade oprimida racialmente.
Quase toda a ação se concentra na noite de inauguração, quando o jovem talento Sammie (Miles Caton) promove uma epifania com uma performance metafísica que põe à prova o tempo cronológico e hipnotiza a plateia, ao evocar espíritos do passado e do futuro. A cena, antológica, é uma das mais belas declarações de amor à música e à cultura negras dos últimos tempos. E há muito mais, até o desfecho catártico “tarantinesco”.

